sexta-feira, 21 de julho de 2017

ADOÇÃO E DESCENDÊNCIA

POR ERICK WOLFF DE OXALÁ

21/07/2017


Este artigo tem por finalidade esclarecer um tema ao qual as pessoas ainda consideram tabu: a adoção de um individuo poderá ou não fazer parte da nossa descendência.

Através da iniciação o indivíduo passa a fazer parte de uma família religiosa; da mesma forma que a esposa ou o esposo, através do matrimonio, passam a fazer parte de uma determinada família biológica. Consideramos assim que descendentes religiosos ou biológicos não são apenas aqueles sanguíneos.

Para os afro religiosos no Brasil ainda é um tema não comentado, onde a noção de pessoa está ligada ao conceito familiar consanguíneo, mesmo considerando a existência da família religiosa através das iniciações.

A descendência é um ponto de discussão: como família consanguínea, possui deveres e direitos a serem preservados; como família espiritual garante a sucessão dos templos e centros religiosos.

 Por isso, é muito importante para a humanidade deixar descendentes vivos, ter filhos e expandir a sua família, para que possam levar o seu nome e até mesmo as suas tradições vivas e ativas.

A “matéria de origem” transmitida pelos pais estende o DNA familiar passando de pais aos filhos; assim como foram feitos pelos avós aos nossos pais biológicos, assim também poderíamos olhar para o espiritual, pois através das iniciações são passados os rituais o DNA espiritual, e passamos a fazer parte de determinadas famílias religiosas assim que somos iniciados.

Assim, entendemos que no segmento religioso, através da iniciação é possível um indivíduo ao entrar em uma família religiosa, receberá este DNA espiritual, repassando-o depois, ativado pela nossa ancestralidade familiar, através do bori, oferenda à cabeça e à ancestralidade, um ritual que nos ajuda a equilibrar a nossa família, os descendentes religiosos, biológicos, e tudo que representa o seu orí, ou seja, tudo que representa a sua individualidade no plano espiritual enquanto estiver vivo no plano físico.

Se fecharmos os olhos e tentarmos imaginar tudo que compõe a nossa pessoa no mundo espiritual, veremos que foram os fatores ancestrais que formaram a base individualizada da nossa pessoa, uma parte da massa ancestral que originou nossa existência.

Sabemos que o destino imutável de nascer de um determinado pai e mãe, garante a nossa ancestralidade. Porém o destino coletivo daquela família, e até mesmo do próprio indivíduo podem levá-lo a um novo caminho, na possibilidade de, através da adoção, formar uma nova família.

Para nós ocidentais, o casamento não é apenas uma instituição para gerar filhos. Claro que os filhos são consequência deste matrimonio, pois, a realidade atual de maior diversidade na formação da família, atualmente temos famílias indivíduos do mesmo sexo, e até mesmo, os que passaram pela adequação de gênero. 

Família também é formada por mães ou pais solteiros, ou em mães ou pais transgêneros, porque família tem também como base de sua formação, a perpetuação do nosso DNA espiritualcarregando a nossa ancestralidadesendo de um ou vários indivíduos, podendo assim mudar o destino de uma ou mais pessoas através da adoçãoproporcionado a qualquer individuo receber qualquer pessoa na sua ancestralidade e torna-lo um descendente:


Família contemporânea: é caracterizada pela inversão dos papéis do homem e da mulher na estrutura familiar passando a ser a mulher a chefe de família. Abrange a família monoparental, constituída por mãe solteira ou divorciada. (www.significados.com.br/familia/ )


Assim a nossa ancestralidade e descendência se mantém viva e ativa, e desta forma, através do nosso presente podemos mudar o futuro, com erros ou acertos; por isso, em todas as atitudes e escolhas devemos dar oportunidades para descendentes ajudarem pessoas, uma oportunidade ao caminho da boa sorte.
  • "Dar a chance de mudar o mau destino e uma criança, é uma dádiva legada aos seres humanos" [Roberto  Tamelini JR, de Oxum]
A adoção não se baseia apenas em adotar uma descendência, mas principalmente em dar oportunidade a alguém, e desta forma, mudar o destino de uma pessoa, antes incerto, agora para melhor, criando vínculos familiares onde não existiam. Neste aspecto, religiosamente, citaremos um mito do religioso dos iorubás:

  • [...] vivia em terras de Queto um caçador chamado Odulecê.
  • Era o líder de todos os caçadores.
  • Ele tomou por sua filha uma menina nascida em Irá, que por seus modos espertos e ligeiros era conhecida por Oiá [...]
  • [...], mas um dia a morte levou Odulecê, deixando Oiá muito triste.
  • A jovem pensou em fazer uma forma de homenagear o seu pai adotivo [...]
  • [ Mãe Stella de Oxossi em: “Meu Tempo é Agora”, 1993, p. 91, apud, Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás, p. 310] 

Esta lenda narra que Oiá foi adotada por um guerreiro, que na sua morte, ela a filha adotiva pode render homenagem e criou o rito funerário, chamado de Arissun ou Axêxe, conforme a tradição religiosa. O importante deste mito é relatar o poder da ancestralidade não está apenas ligada aos descendentes sanguíneos, e que um filho adotivo pode honrar pais mãe apôs a sua morte. Assim mantendo-o vivo nesta memória atraves dos rituais, cultuando assim a memoria do seu pai, no caso: Odulecê.

Assim como no filme “Lion, uma jornada para casa”, onde Nicole Kidman (Personagem: Sue), interpreta a mãe de Dev Pate (Personagem: Saroo), e numa cena linda, ele se desculpa por não ser o filho que ela não pode ter, e ela o interrompe e diz que ela sempre pode engravidar, mas escolheu dar uma vida melhor a dois seres humanos, lindos e perfeitos: Saroo e seu irmão problemáticos Mantosh, personagem de Divian Ladwa.

FONTE CONSULTADA SOBRE ADOÇÃO

Dr. Roberto Tamelini Junior, Advogado, Roberto de Oxum, em 12/06/2009, religião Batuque do RS, tradição Kambina, por Gui de Xapanã. 


BIBLIOGRAFIA PESQUISADA

VERGER, Pierre. “Noção de Pessoa e Linhagem Familiar Yoruba”, em: Notes sur le Culte des Orixá et Vodun, Mémoire de IFAN. Dacar, n. 51, 1957. Disponível em: https://luizlmarins.files.wordpress.com/2016/08/nocao-de-pessoa-e-linhagem-famililar-entre-os-iorubas-verger.pdf  Acessado em 26/06/2017.

FILME


LION - UMA JORNADA PARA CASA, Direção: Garth Davis, EUA, AustráliaReino Unido, 2017.

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