quarta-feira, 22 de abril de 2026

A LINDA TRAJETÓRIA DA FAMÍLIA PIRES NO BATUQUE DO RIO GRANDE DO SUL

Coletamos este depoimento do perfil do Pai André de Oxalá Ylle Oxala Bocum Oxum Panda, ao qual faz uma homenagem à família Pires, nela relata que a bisavó era oriunda do Candomblé.  
Ainda no texto ele relata que foi batizado no Batuque do R.S., e chama o ritual de Oribibo.
 


"A LINDA TRAJETÓRIA DA FAMÍLIA PIRES NO BATUQUE DO RIO GRANDE DO SULTexto por Pai André de Oxalá Ylle Oxala Bocum Oxum Panda 
Publicado em 14/04/2026 e acesso em 22/04/2026 às 8h40min. 

Esta raiz vem de 1860 oriunda da escravidão ( Filha de Escrava) Paulina Rekelme viveu 96 anos ( Tinha sua Obrigação de Candomblé) minha ( Bisavó)

Avó de minha saudosa Mãe Maria de Lourdes, eu André sou a quarta geração de acordo com o depoimento de meu Pai carnal José Antônio Pires ( vivo ) com 82 anos, o mesmo afirma que minha saudosa Mãe teve convívio durante seus primeiros anos de vida 5 anos com sua avó ( materna).
 
Nasce em 1951 minha mãe no dia 11 de Maio uma criança com muitas dificuldades e com uma mediunidade ímpar.
 
O tempo passa...
Em Janeiro de 1970 eles se conhecem José Antônio Pires e Maria de Lourdes, meu pai e minha mãe. meu Pai trazendo uma força espiritual de minha avó Paterna Dionísia Pires oriunda do Kardesismo, deste casamento, nascem 3 filhos.
 
Andre Pires 1973
Elaine Pires 1975
Rosane Pires 1976
 
Nasci com problemas sérios de saúde e um estrabismo nos dois olhos, totalmente strabico, com uma anemia incurável foi aí que meu Pai carnal teve um sonho, um aviso de que irria me perder, 9 meses depois de eu nascer, mas em 23 de Abril de 1974 no Axé de Xangô Aganju Loní da saudosa Mãe Theresa filha de Santo de Airton Albuquerque de Oxum.

Fui batizado na Nação por saúde a 52 anos, os Orixás respondem e o Pai Oxalá Bocum me assume, Mãe Thereza fez a confirmação de minha cabeça logo após realizou o Batismo com Duas Galinhas Brancas, uma quartinha branca, uma guia branca ( Aribíbó) que estão comigo todos estes anos de minha vida. Neste dia mudou toda minha vida!

Após o batismo já se passando 5 anos meu Pai marca a viajem de Trem Húngaro de Uruguaiana para Porto Alegre, destino a casa de PAI JOAO VÓ DE OXUM DOCÔ
( BACIA JEJE VOODO) 

Isso em 1978 no aniversário de Mãe Oxum Docô ,foi realizado o (OBORI) adjunto e mais 5 santos (encostados) deixando pra o proximo ano o apronte em vasilhas de 4 pés e axes de Búzios e Facas.

Em 1979 dia 23 de setembro realizou-se o apronte de minha mãe Maria de Lourdes, e eu André Pires, meu Pai neste momento já era Pronto de Vasilha pela Mãe ( Ilca de Yensã Dirã) 17 Júlio de 1970 completando este ano 56 anos de Vasilha de Ogum Onira e outros.
 
Estando ali presente no meu apronte e de minha mãe carnal...
Pai João vó de Oxum docô/ Meu Pai de Santo nesta data!
Pai Tião de Bara Lode
Pai Airton de Oxum
Pai Cleon de Oxalá
Pai Perica de Xangô
Mãe Taia de Xapanã

E outros Babás e Yabás amigos chefes religiosos da época que saudoso Pai João vó era amigo ou ( João das Guias ) como carinhosamente chamavam .
 
Heranças ;
Orixá Oxum Balé ( Saudosa Mãe Carnal)
Umbanda de minha finada Vó Paterna Seara ( Cacique 7 Flechas), herdo também a Umbanda de minha Saudosa Mãe, Seara ( Cacique Oxossi ) de Ogum Beira Mar,
Exu Destranca Rua nasce em 23 agosto de 1989 no fundamento de Kirumbo feito este Exu pela faça de POMBAGIRA MARIA PADILHA DAS DAS ALMAS de minha Mãe carnal vindo este fundamento da feitura de Saudoso JORGE THEODORO da Rainha das Almas ( Pai Jorge de Yemanjá Bocí )
Abaixo na foto em pé minha Mãe carnal
Sentada minha primeira mãe de Santo Mãe Thereza de Xangô Aganju loní
Eu estou agarrado a minha Avó Paterna Mãe de meu Pai carnal .
Foto colorida artificialmente @destacar"

 

OYA DIRÃ CULTUADA NO PÁTIO

Neste vídeo publicado em 3 de março de 2026, no nosso canal do Tiktok, reúne vídeos de sacerdotes da Kambina, inclusive o livro Nação dos Orixás, do Paulo Tadeu, que registra os costumes e tradições da família dele.

Estudaremos o caso da Oya Dirã, cultuada como orixá que fica no pátio ou no quarto de orixá.

 


@erickwolffz ESTUDO DE CASO: Oyá Dirã e Oyá Atimbowa #batuque #oya #iansa ♬ som original - erickwolffz

terça-feira, 21 de abril de 2026

ESCLARECIMENTOS DE MÃE ALINE DE OYA DIRÃ

Coletamos esta postagem da mídia social Facebook, com o intuito de registrar os costumes e tradições do Batuque, segmento Kambina.

Mãe Aline Roman é filha de mãe Thais de Xapanã, neta de pai Cleon de Oxalá, segmento Kambina. Mãe Aline relata que é filha de Oyá Dirã, e fundamenta que Oya Dirã é um orixá de rua.

 
"MÃE ALINE DE OYÁ
Postado em 18/04/2026 
 
Com respeito ao Orixá que habita o Orí de cada irmão(a), bem como a veracidade da sua feitura. Eu caminho com firmeza, sem invadir, sem julgar, sem ultrapassar o que não me foi permitido.
 
Honro o destino de cada um, porque sei que cada cabeça carrega seu tempo, sua verdade e seu sagrado. Minha palavra não é imposição — é direção. Minha força não é controle — é fundamento. 
 
E minha espiritualidade não negocia caráter.
 
Com respeito a todos, eu não ultrapasso, eu não invado, eu não negocio.
 
Cada cabeça carrega seu destino E eu não brinco com destino.
 
Minha palavra não pede espaço - ela abre caminho. Minha presença não disputa -ela se impõe com fundamento. E minha espiritualidade não se vende, não se molda e não se corrompe.
 
Não existe melhor Orixá, nem pior - existe feitura.
 
Não é sobre comparação, é sobre fundamento. Não é sobre quem brilha mais, é sobre quem sustenta o que carrega.
 
Cada Orí responde ao seu destino Cada caminho exige verdade.
 
Orixá não erra - quem falha é a feitura mal cuidada, o caráter desalinhado, a falta de compromisso com o sagrado.
 
Aqui não tem ranking espiritual. Tem responsabilidade, tem raiz, tem respeito .
Mãe Aline de Oyá 📍Ilé Àse Oyá Dirá
🇦🇴 Nação Cabinda - Batuque do Rio Grande do Sul." (acessado em 20/04/2026 às 10h58min) 
 
VÍDEO:
 
Transcrição:
  • [00:00] "Gente, boa tarde. Eu me chamo Mãe Aline de Oyá e no decorrer desta semana me deparei com um vídeo falando sobre Orixás de rua, especificamente sobre Oyá Dirá. E nada melhor que uma filha legítima de Oyá Dirá para falar sobre Oyá Dirá."


  • [00:18] "Eu não estou aqui para entrar no mérito fundamento. Eu respeito todas as casas, todas as roças, todas as nações. Porém, eu, como filha legítima de Oyá Dirá, estou aqui para esclarecer o que é carregar um Orixá de rua no ori, como é carregar a força de Oyá Dirá no meu ori."


  • [00:35] "Sem entrar no mérito fundamento e com respeito a todas as formas de se cultuar Oyá Dirá... venho neste momento tentar acabar de vez com as polêmicas de rechaçamento sobre carregar um Orixá de rua no ori."


  • [00:48] "No decorrer desta semana, me deparei com um vídeo nas redes sociais falando sobre a feitura de Oyá Dirá. E muito me espanta a forma como as pessoas se referem ao Orixá Oyá Dirá de forma ainda pejorativa, principalmente de um Orixá que traz e carrega uma força imensurável, onde somente um filho legítimo deste Orixá tem capacidade para falar sobre como é carregar no ori."


  • [01:10] "Neste vídeo, há um paradoxo entre a força dos Orixás de rua tal como energias negativas e, vejam bem gente, até mesmo espíritos obsessores."


  • [01:25] "Então, novamente digo para vocês, eu não estou aqui para polemizar a feitura e como se cultua o Orixá Oyá Dirá, mas estou aqui para dizer para vocês que somente quem carrega um ori legítimo de um Orixá de rua tem propriedade para falar deste assunto, sobre o que é carregar essa força de um Orixá de rua em nossa vida."


  • [01:40] "Eu sou filha de Oyá Dirá, as minhas obrigações são feitas na rua. Eu carrego a essência de um Orixá de rua e mudar isso seria mudar toda a minha trajetória de vida, seria mudar toda a minha ancestralidade."


  • [01:55] "É como se fosse uma caixa preta, cada um, cada pessoa, cada ser humano possui a sua. Eu sou uma mulher casada, eu sempre trabalhei a minha vida inteira, eu sempre estudei, sou formada em Administração de Empresas. A minha casa é uma casa próspera, o meu axé é um axé próspero."


  • [02:15] "Então, o que eu quero dizer para vocês é: parem de aplaudir aquilo que vocês não têm conhecimento e propriedade no assunto." (os grifos são nosso)

Imagem comprobatória 


 Link https://www.facebook.com/reel/2804346706565176

quarta-feira, 8 de abril de 2026

AGANMA: VODUN LIGADO A ORIGEM DA CRIAÇÃO

Neste ensaio registramos a divindade Aganma, um vodun masculino representado pelo camaleão.
 
 

Culto de Mawu e Lisa no Vodu
Por Robson Ifáwole

[...] Lisa pode ser chamado também de Alökpe (Alökpe significa mão pequena, isso seria uma apelido de Lisa referindo-se a pata de um camaleão o seu animal sagrado ao qual Lisa é simbolizado) o culto a Lisa teria aparecido primeiro com os Aja por isso refere-se à cidade de Aja o nascimento de culto a Lisa em uma lenda no qual Lisa teria descido do céu em forma de um camaleão (Aganma) assim se tornando o patrono dos Ajanu e por sua aparição em forma de camaleão ganhou o apelido de Alökpe.

A filiação desse vodun é muito difícil de se estabelecer em uma só verdade porque isso se estenderia a outras duas famílias de culto vodun, a familia xévyoso e a família Sapata. Porém as versões mudam de acordo com as famílias de culto. De acordo com um sacerdote de um templo de Djèna, do par primordial Mawu e Lisa nasceu Agé, o caçador, Gu o ferreiro e ji a serpente do arco-íris ( arco-íris é chamado de Aydo-hwedo) e só mais tarde apareceriam os voduns do panteon de Hevyoso e Sakpata. Antes disso estão os voduns reais, começando por Yegu Tenu Gesu mais conhecido por Ajahuto e no panteon vodun chamado de Agasu.

De acordo com o sacerdote de Djèna, Mau e Lisa teriam existido antes de tudo e todos pois eles criaram os voduns e os homens como também tudo o que a no planeta Terra. Mau é simbolizada pela a Lua, representando o elemento feminino e Lisa o Sol ( Lisa também é também representado pelo camaleão chamado Aganma.

De acordo com a tradição Ajanu (Ajanu= vindo de Aja) esse animal é anacrônico e sua aptidão ao Mimetismo faz dele um animal muito misterioso tornando-o intimo a Lisa e assim Lisa tendo o poder de fazer uma metamorfose de cameleão o seu animal preferido. Outro mito diz que Lisa; pode ter criado todas as coisas e teria escolhido o camaleão, um dos seres mais primitivos, para sua representação. Outra versão menciona que a Lisa apareceu desta forma para os Ajanu em uma forma de passar respeito, pois o camaleão é um animal sagrado para os Ajanu) representando o elemento masculino. Em todo caso, estas duas divindades são inseparáveis dentro dos pensamentos dos Fon que os vê como o par primordial, herança dos nossos mais antigos antepassados, as divindades responsáveis da criação. [...] ( o grifo é nosso) acessado em 08/04/2026 às 13:00
 
Imagem comprobatório
 
Fonte - https://pt.scribd.com/document/53882572/COLEGIO-DE-MAWU-E-LISA 


Nesta imagem o vodun Aganma (o camaleão ) está em destaque.
 
[...]Tohossou, Aganma (la Prosperità, il Camaleonte), Sakpata - Cyprien Tokoudagba - Africa Today - Vetrina Roma - Roma [...]  acessado em 08/04/2026 às 13:10
 
Imagem comprobatória:
 
Fonte - https://www.flickr.com/photos/spalluzza/2401782430/in/photostream/ 

 


terça-feira, 31 de março de 2026

ANCESTRALIDADE AFRICANA: UMA DIMENSÃO DE SUA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL

 

 

Marcelo Osanyinwumi Candido

06/02/2026

 

“Quando não souber para onde ir, olhe para trás e saiba pelo menos de onde vem. ”

(Provérbio africano)

 

Há perguntas que parecem simples, mas carregam dentro delas um mundo inteiro de sentidos e significados. “O que é ancestralidade africana? ”. É uma delas.

Não existe uma única definição capaz de abranger todas as cosmologias africanas, mas é possível identificar princípios estruturais que atravessam algumas correntes.

Compreender quem nós somos não pode ser dissociado da pergunta de quem nós éramos. E mais do que isso, não pode ser dissociado da pergunta de quem continuamos sendo quando preservamos memória, quando mantemos um culto, quando reconhecemos uma linhagem, quando sustentamos uma continuidade.

A África não é homogênea.

É um continente de povos, línguas, filosofias e cosmologias distintas. Falar de ancestralidade africana envolve diferentes tradições e diversas formas de compreender o tempo, o invisível e a vida. Ainda assim, existe um princípio comum que atravessa muitas dessas visões: ancestralidade não é passado. É presença. É fundamento. É continuidade.


ANCESTRALIDADE COMO MODO DE EXISTIR


Em muitas cosmologias africanas, a ancestralidade não é uma categoria do passado, mas uma estrutura viva que sustenta a continuidade do ser na comunidade. Não se trata de memória distante, mas de condição de existência. Nela, os mortos integrados ao campo do culto deixam de ser apenas indivíduos e passam a operar como princípio coletivo de identidade, memória, ética e equilíbrio social.

Ancestralidade africana não é lembrança afetiva. Não é apenas genealogia. Não é honrar antepassados de forma abstrata. Tampouco se reduz a herança genética ou a traços psicológicos familiares. Não é memória emocional transmitida.

É um campo estruturado de conhecimento, ética e consciência coletiva, transmitido por meio do rito, da linhagem e da continuidade cosmológico-cultural, que atravessa gerações e permanece ativo no presente e na organização da vida comunitária.

Quando a linhagem e o culto contínuo se interrompem, essa forma estruturada pode enfraquecer. Ainda assim, a ancestralidade não desaparece: pode permanecer como memória viva e, em contextos de ruptura histórica, reorganizar-se por meio de reconstruções comunitárias, recriando formas de continuidade mesmo após interrupções profundas.

Existe memória individual, que pode ser preciosa, mas não possui a mesma densidade ritual e coletiva de uma ancestralidade ativa e organizada. Por isso, cultura não é detalhe: é sustentação, é eixo e é direção.


CULTURA, RUPTURA E CONTINUIDADE


Quando um povo perde sua cultura, perde suas referências, linguagem simbólica, crenças e orientação sobre si mesmo. Perde também sua identidade e a forma pela qual compreende o mundo e a si próprio.

A cultura funciona como estrutura de proteção simbólica e espiritual de uma comunidade. Quando enfraquecida ou atacada, o corpo social torna-se vulnerável à desorganização e ao apagamento.

Como sintetizou a antropóloga cultural Marimba Ani, ao refletir sobre processos de desestruturação cultural: “Sua cultura é seu sistema imunológico. ”

A colonização produziu formas profundas de desorganização ao interromper sistemas culturais que sustentavam identidade, ética e equilíbrio comunitário. Essa ruptura não foi apenas territorial, política e/ou econômica. Foi também simbólica e espiritual. Em muitos contextos, configurou o que pensadores contemporâneos chamam de epistemicídio: a desqualificação sistemática e a tentativa de apagamento de sistemas inteiros de conhecimentos e crenças, frequentemente substituídos por modelos considerados superiores ou universais.

Desse modo, legítimos saberes ancestrais foram perseguidos, ridicularizados e reinterpretados por olhares euro centrados e fetichizantes, que reduziram sistemas complexos a caricaturas, rotuladas como “misticismo primitivo” ou “exotismo espiritual”.

A transmissão cultural, por si mesma, não é alienação; tampouco é imposição de pensamento ou supressão da autonomia. Toda cultura transmite símbolos, valores, narrativas e estruturas de sentido. Isso faz parte do processo humano de socialização. Ninguém nasce fora de um campo simbólico. A questão está na forma como essa transmissão ocorre.

Quando uma linhagem transmite memória, forma identidade, insere o indivíduo em um campo simbólico e preserva continuidade cultural, está promovendo socialização estruturante, não aprisionamento. Alienação ocorre quando há coerção, medo, silenciamento ou impossibilidade de reflexão.

A existência de dogmas rituais e de segredos iniciáticos não configura dogmatismo opressivo, mas um mecanismo de preservação identitária e de proteção de saberes que dependem de transmissão qualificada. Uma tradição viva não exige submissão cega, mas permite maturidade, diálogo e até mesmo a decisão consciente de permanecer ou transformar.

A ancestralidade, quando saudável, não aprisiona; estrutura o ser e amplia a consciência, sem se converter em rigidez dogmática. Ela não se apresenta como verdade universalizante; sustenta-se como continuidade interna de uma linhagem, transmitida entre aqueles que compartilham seu próprio campo simbólico. Sem ancestralidade ativa, a sociedade perde sua sombra.

É como se a árvore, ao esquecer a raiz, adoecesse por dentro, perdendo a essência de quem é, a força dos frutos e a promessa das sementes que sustentam sua continuidade.

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O Sopro dos Ancestrais
(Souffles – Birago Diop)
“Escuta mais frequentemente
as coisas do que os seres.
Escuta o vento que passa
e conta a história do mundo.
É o sopro dos ancestrais.
Aqueles que morreram nunca partiram:
estão na sombra que se ilumina
e na sombra que se espessa.
Os mortos não estão sob a terra:
estão na árvore que estremece,
estão na madeira que geme,
estão na água que corre,
estão na água que dorme,
estão na cabana,
estão na multidão.
Os mortos não estão mortos.
Escuta mais frequentemente
as coisas do que os seres.
Escuta o fogo que crepita,
escuta a voz das águas.
Escuta no vento
o arbusto em soluço:
é o sopro dos ancestrais.
Aqueles que morreram nunca partiram:
estão no seio da mulher,
estão na criança que chora,
estão no tronco que cresce.
Os mortos não estão sob a terra:
estão no fogo que se apaga,
estão nas ervas que choram,
estão na rocha que geme,
estão na floresta,
estão na casa.
Os mortos não estão mortos.”

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Nesse poema, a ancestralidade aparece como sopro que atravessa o mundo, como continuidade vital que respira na árvore, na água, na madeira, na mulher, na criança e na casa. Trata-se de uma percepção ampla da presença ancestral, que não se limita ao corpo físico nem se reduz à memória psicológica.

Em diferentes contextos africanos, essa experiência da ancestralidade pode manifestar-se como presença que atravessa a natureza, como força vital que circula entre o visível e o invisível.

Em algumas culturas da África Ocidental, por exemplo, a ancestralidade assume formas rituais próprias. Entre os povos fon, manifesta-se na figura do Zangbeto, guardião ancestral que emerge sob o cone de palha, expressão de uma cosmologia distinta da ioruba. 

Ver: 

https://www.facebook.com/share/r/1HA3dANJvB/?mibextid=wwXIfr 

https://vt.tiktok.com/ZSmDLSwSu/

 

Em outros contextos africanos, assume ainda outras configurações simbólicas e institucionais.

Essa pluralidade não fragmenta o princípio da ancestralidade. Ao contrário, revela sua riqueza e a diversidade das formas pelas quais diferentes povos estruturam a presença de seus ancestrais.

No universo iorubá tradicional, em contextos onde o culto ancestral é formalmente organizado, essa presença assume forma estruturada e institucional.

É nesse ponto que a ancestralidade deixa de ser apenas sopro e passa a ser campo organizado de continuidade coletiva.


EGÚNGÚN COMO ANCESTRALIDADE ESTRUTURADA


É nesse contexto que a ancestralidade, no universo ioruba tradicional, assume forma concreta e institucional. A imagem que acompanha este texto registra a manifestação de Egúngún que integram o campo ancestral da linhagem Ẹgbẹ́wọlé, incluindo os primeiros bàbálósányìn dessa linhagem, responsáveis pela organização e continuidade do culto de Òsányìn no âmbito familiar em Ilé-Ifè.

Aqui a presença ancestral deixa de ser apenas sopro e se afirmar como estrutura organizada de continuidade dentro do culto. Podemos compreender Egúngún, em termos filosóficos, como a expressão organizada da herança de uma linhagem iorubá.

No pensamento ioruba, ancestralidade não é apenas memória que vibra na natureza, mas continuidade formalmente reconhecida, ritualizada e integrada à organização social. Egúngún é essa continuidade tornada campo coletivo. Significa, de forma ampla, aquele que retorna do Òrun para visitar os vivos. Mas, em sentido profundo, não se trata de um morto específico. Egúngún é a presença viva da ancestralidade organizada.

É a memória espiritual de uma família, clã ou cidade. É a consciência coletiva dos mortos ilustres de uma determinada linhagem.

Não é espírito individual.

Não é entidade errante.

Não é manifestação isolada.

É a expressão espiritual coletiva de ancestrais reunidos sob um mesmo princípio de linhagem.

Quando uma pessoa morre e recebe os ritos corretos, torna-se ara-ọrun, habitante do mundo espiritual. Depois se integra ao campo ancestral da família e, com o tempo, deixa de ser apenas um nome individual para tornar-se força ancestral coletiva.

Aqui está a diferença fundamental.

No universo iorubá tradicional, em determinadas linhagens, a ancestralidade assume forma estruturada e institucional, constituindo uma herança que sustenta a continuidade do ser dentro da linhagem. Metaforicamente, pode-se dizer que Egúngún pode ser compreendido como a memória espiritual organizada da linhagem.

Tudo o que aquela família foi, viveu, errou, venceu e construiu permanece inscrito nesse campo ancestral. Ele não representa apenas continuidade espiritual, mas continuidade social, ética e normativa.


O CORPO RITUAL


No culto tradicional, Egúngún se manifesta através do Eku, o traje sagrado. Não se trata de fantasia ou representação teatral, mas de uma manifestação ritual reconhecida como presença ancestral. É a ancestralidade materializada.

Naquela roupagem não está um indivíduo, mas a memória viva de uma comunidade e a continuidade de uma linhagem de saberes teológicos, rituais e filosóficos. Por isso ninguém toca sem permissão, ninguém encara sem preparo, ninguém brinca com Egúngún.

O Eku funciona como condensador físico da memória ancestral. É como se toda a linhagem vestisse aquele corpo ao mesmo tempo.

Ali não há indivíduo.

Há princípio coletivo.


O QUE EGÚNGÚN NÃO É


Egúngún não é espírito errante.

Não é entidade solta.

Não é obsessor.

Não é guia pessoal.

Não é morto recente.

No universo tradicional, sua existência está vinculada à família estruturada, à linhagem reconhecida, ao sacerdócio legítimo e ao culto contínuo. Sem esses elementos, fala-se mais propriamente de espírito individual, e não da estrutura ancestral coletiva chamada Egúngún.


FUNÇÃO DA ANCESTRALIDADE


Egúngún não se limita ao consolo individual. Sua função principal é coletiva.

Não é apenas diálogo com os mortos, mas princípio ativo de manutenção da ordem moral e da continuidade da tradição. Egúngún intervém na correção de desvios éticos, restaurando o equilíbrio moral e social da família, reafirmando seus valores e responsabilidades compartilhadas e lembrando os vivos de que não estão separados da história coletiva.

Sua presença recorda que ninguém nasce isolado: cada indivíduo é continuidade de uma história. Egúngún não é apenas presença benevolente. É também instância de reequilíbrio, reafirmação e orientação. É a ancestralidade lembrando que sua vida não começa em você.


SÍNTESE


A ancestralidade africana é um sistema espiritual coletivo de memória viva, identidade, ética e continuidade do ser na comunidade. É defesa cultural e espiritual diante das rupturas históricas e das tentativas de desqualificação de seus fundamentos.

Nem a travessia do mar, nem o ardor do chicote nas costas, nem as múltiplas violências impostas ao longo da história puderam apagar essa continuidade.

Ancestralidade também é enfrentamento. É luta pela preservação do direito de existir como se é. É resistência diante das tentativas de apagamento.

Não é apenas herança; é afirmação. Mesmo em terras iorubas, onde o cristianismo e o islamismo expandiram-se ao longo dos séculos e onde a ancestralidade tradicional foi tensionada por ideologias de apagamento, seus fundamentos reorganizaram-se, coexistiram e, em muitos casos, preservaram seus princípios estruturais.

Ancestralidade não é objeto que se carrega; é essência que se manifesta na vida. Manifesta-se na escuta do oráculo, que orienta o rito e revela o caminho. Na roupa e nas cores. Na voz e no sorriso. No ritual, nas folhas e nas oferendas consagradas segundo a revelação oracular. Nos saberes, nos ofò e nos mitos que se transformam em ritos da cultura e memória ancestral.

Nas comidas, nas danças e nos tambores. Na cosmologia e na continuidade da própria linhagem. E quem reconhece suas raízes conhece sua identidade e aprende a insistir em ser. Sabe o tempo de trocar as folhas para fertilizar o chão que o sustenta. Sabe firmar-se contra as correntes de vento. Sabe a hora de florescer e exalar sua beleza e seu cheiro.

Sabe acolher a chuva e receber o sol. Sabe o valor de sua forma e de suas cores, que revelam quem é. Sabe devolver à natureza e aos seres humanos o àṣẹ que respira dentro de si. Oferecer a doçura dos frutos, a sombra, os remédios e os encantos.

E, em todas as estações, discernir o momento de semear novas sementes ou de afirmar seus espinhos. Tudo isso porque quem reconhece suas raízes sabe quem é, de onde vem, qual é sua direção e honra sua essência.

Ẹ̀pà Egúngún! Ẹ̀pà!

Ọ̀sányìnwumi

Bàbálọ̀sányìn Ẹ̀gbẹ́wọlé no Brasil

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Fonte:

FACEBOOK - Osanyinwumi

https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=892753577015799&id=100088434954773


Transcrição e adaptação: Luiz L. Marins

https://uiclap.bio/luizlmarins 

sexta-feira, 27 de março de 2026

SOLIPSISMO INTELECTUAL


A MENTE ISOLADA DO INTELECTUAL


Luiz L. Marins


07/03/2026


Quando dizemos que, para certos intelectuais, "só existe o seu próprio pensamento", estamos falando de um comportamento onde:


* O outro é descartado: Se o solipsismo filosófico diz que "outras mentes podem não existir", o solipsista intelectual age como se "outras mentes não tivessem conhecimento".


* Filtro de confirmação radical: Ele desconsidera pensamentos contrários não porque os refutou com provas, mas porque, dentro do sistema lógico dele, nada que venha de fora, isto é, do outro, tem para ele o mesmo "status" de realidade.


* Auto referencialidade: O intelectual solipsista - passa a citar a si mesmo - ou a um grupo restrito que pensa igual, criando um universo onde a realidade externa (as contestações ou as críticas) são tratadas como um ruído irrelevante, desconsiderando qualquer evidência contrária.


Ao intelectual é preciso policiar-se para não se tornar um solipsista intelectual, porque, a partir deste ponto todos perdem: ele e a sociedade.

TIKTOK ERICK WOLFF