terça-feira, 31 de março de 2026

ANCESTRALIDADE AFRICANA: UMA DIMENSÃO DE SUA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL

 

 

Marcelo Osanyinwumi Candido

06/02/2026

 

“Quando não souber para onde ir, olhe para trás e saiba pelo menos de onde vem. ”

(Provérbio africano)

 

Há perguntas que parecem simples, mas carregam dentro delas um mundo inteiro de sentidos e significados. “O que é ancestralidade africana? ”. É uma delas.

Não existe uma única definição capaz de abranger todas as cosmologias africanas, mas é possível identificar princípios estruturais que atravessam algumas correntes.

Compreender quem nós somos não pode ser dissociado da pergunta de quem nós éramos. E mais do que isso, não pode ser dissociado da pergunta de quem continuamos sendo quando preservamos memória, quando mantemos um culto, quando reconhecemos uma linhagem, quando sustentamos uma continuidade.

A África não é homogênea.

É um continente de povos, línguas, filosofias e cosmologias distintas. Falar de ancestralidade africana envolve diferentes tradições e diversas formas de compreender o tempo, o invisível e a vida. Ainda assim, existe um princípio comum que atravessa muitas dessas visões: ancestralidade não é passado. É presença. É fundamento. É continuidade.


ANCESTRALIDADE COMO MODO DE EXISTIR


Em muitas cosmologias africanas, a ancestralidade não é uma categoria do passado, mas uma estrutura viva que sustenta a continuidade do ser na comunidade. Não se trata de memória distante, mas de condição de existência. Nela, os mortos integrados ao campo do culto deixam de ser apenas indivíduos e passam a operar como princípio coletivo de identidade, memória, ética e equilíbrio social.

Ancestralidade africana não é lembrança afetiva. Não é apenas genealogia. Não é honrar antepassados de forma abstrata. Tampouco se reduz a herança genética ou a traços psicológicos familiares. Não é memória emocional transmitida.

É um campo estruturado de conhecimento, ética e consciência coletiva, transmitido por meio do rito, da linhagem e da continuidade cosmológico-cultural, que atravessa gerações e permanece ativo no presente e na organização da vida comunitária.

Quando a linhagem e o culto contínuo se interrompem, essa forma estruturada pode enfraquecer. Ainda assim, a ancestralidade não desaparece: pode permanecer como memória viva e, em contextos de ruptura histórica, reorganizar-se por meio de reconstruções comunitárias, recriando formas de continuidade mesmo após interrupções profundas.

Existe memória individual, que pode ser preciosa, mas não possui a mesma densidade ritual e coletiva de uma ancestralidade ativa e organizada. Por isso, cultura não é detalhe: é sustentação, é eixo e é direção.


CULTURA, RUPTURA E CONTINUIDADE


Quando um povo perde sua cultura, perde suas referências, linguagem simbólica, crenças e orientação sobre si mesmo. Perde também sua identidade e a forma pela qual compreende o mundo e a si próprio.

A cultura funciona como estrutura de proteção simbólica e espiritual de uma comunidade. Quando enfraquecida ou atacada, o corpo social torna-se vulnerável à desorganização e ao apagamento.

Como sintetizou a antropóloga cultural Marimba Ani, ao refletir sobre processos de desestruturação cultural: “Sua cultura é seu sistema imunológico. ”

A colonização produziu formas profundas de desorganização ao interromper sistemas culturais que sustentavam identidade, ética e equilíbrio comunitário. Essa ruptura não foi apenas territorial, política e/ou econômica. Foi também simbólica e espiritual. Em muitos contextos, configurou o que pensadores contemporâneos chamam de epistemicídio: a desqualificação sistemática e a tentativa de apagamento de sistemas inteiros de conhecimentos e crenças, frequentemente substituídos por modelos considerados superiores ou universais.

Desse modo, legítimos saberes ancestrais foram perseguidos, ridicularizados e reinterpretados por olhares euro centrados e fetichizantes, que reduziram sistemas complexos a caricaturas, rotuladas como “misticismo primitivo” ou “exotismo espiritual”.

A transmissão cultural, por si mesma, não é alienação; tampouco é imposição de pensamento ou supressão da autonomia. Toda cultura transmite símbolos, valores, narrativas e estruturas de sentido. Isso faz parte do processo humano de socialização. Ninguém nasce fora de um campo simbólico. A questão está na forma como essa transmissão ocorre.

Quando uma linhagem transmite memória, forma identidade, insere o indivíduo em um campo simbólico e preserva continuidade cultural, está promovendo socialização estruturante, não aprisionamento. Alienação ocorre quando há coerção, medo, silenciamento ou impossibilidade de reflexão.

A existência de dogmas rituais e de segredos iniciáticos não configura dogmatismo opressivo, mas um mecanismo de preservação identitária e de proteção de saberes que dependem de transmissão qualificada. Uma tradição viva não exige submissão cega, mas permite maturidade, diálogo e até mesmo a decisão consciente de permanecer ou transformar.

A ancestralidade, quando saudável, não aprisiona; estrutura o ser e amplia a consciência, sem se converter em rigidez dogmática. Ela não se apresenta como verdade universalizante; sustenta-se como continuidade interna de uma linhagem, transmitida entre aqueles que compartilham seu próprio campo simbólico. Sem ancestralidade ativa, a sociedade perde sua sombra.

É como se a árvore, ao esquecer a raiz, adoecesse por dentro, perdendo a essência de quem é, a força dos frutos e a promessa das sementes que sustentam sua continuidade.

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O Sopro dos Ancestrais
(Souffles – Birago Diop)
“Escuta mais frequentemente
as coisas do que os seres.
Escuta o vento que passa
e conta a história do mundo.
É o sopro dos ancestrais.
Aqueles que morreram nunca partiram:
estão na sombra que se ilumina
e na sombra que se espessa.
Os mortos não estão sob a terra:
estão na árvore que estremece,
estão na madeira que geme,
estão na água que corre,
estão na água que dorme,
estão na cabana,
estão na multidão.
Os mortos não estão mortos.
Escuta mais frequentemente
as coisas do que os seres.
Escuta o fogo que crepita,
escuta a voz das águas.
Escuta no vento
o arbusto em soluço:
é o sopro dos ancestrais.
Aqueles que morreram nunca partiram:
estão no seio da mulher,
estão na criança que chora,
estão no tronco que cresce.
Os mortos não estão sob a terra:
estão no fogo que se apaga,
estão nas ervas que choram,
estão na rocha que geme,
estão na floresta,
estão na casa.
Os mortos não estão mortos.”

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Nesse poema, a ancestralidade aparece como sopro que atravessa o mundo, como continuidade vital que respira na árvore, na água, na madeira, na mulher, na criança e na casa. Trata-se de uma percepção ampla da presença ancestral, que não se limita ao corpo físico nem se reduz à memória psicológica.

Em diferentes contextos africanos, essa experiência da ancestralidade pode manifestar-se como presença que atravessa a natureza, como força vital que circula entre o visível e o invisível.

Em algumas culturas da África Ocidental, por exemplo, a ancestralidade assume formas rituais próprias. Entre os povos fon, manifesta-se na figura do Zangbeto, guardião ancestral que emerge sob o cone de palha, expressão de uma cosmologia distinta da ioruba. 

Ver: 

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https://vt.tiktok.com/ZSmDLSwSu/

 

Em outros contextos africanos, assume ainda outras configurações simbólicas e institucionais.

Essa pluralidade não fragmenta o princípio da ancestralidade. Ao contrário, revela sua riqueza e a diversidade das formas pelas quais diferentes povos estruturam a presença de seus ancestrais.

No universo iorubá tradicional, em contextos onde o culto ancestral é formalmente organizado, essa presença assume forma estruturada e institucional.

É nesse ponto que a ancestralidade deixa de ser apenas sopro e passa a ser campo organizado de continuidade coletiva.


EGÚNGÚN COMO ANCESTRALIDADE ESTRUTURADA


É nesse contexto que a ancestralidade, no universo ioruba tradicional, assume forma concreta e institucional. A imagem que acompanha este texto registra a manifestação de Egúngún que integram o campo ancestral da linhagem Ẹgbẹ́wọlé, incluindo os primeiros bàbálósányìn dessa linhagem, responsáveis pela organização e continuidade do culto de Òsányìn no âmbito familiar em Ilé-Ifè.

Aqui a presença ancestral deixa de ser apenas sopro e se afirmar como estrutura organizada de continuidade dentro do culto. Podemos compreender Egúngún, em termos filosóficos, como a expressão organizada da herança de uma linhagem iorubá.

No pensamento ioruba, ancestralidade não é apenas memória que vibra na natureza, mas continuidade formalmente reconhecida, ritualizada e integrada à organização social. Egúngún é essa continuidade tornada campo coletivo. Significa, de forma ampla, aquele que retorna do Òrun para visitar os vivos. Mas, em sentido profundo, não se trata de um morto específico. Egúngún é a presença viva da ancestralidade organizada.

É a memória espiritual de uma família, clã ou cidade. É a consciência coletiva dos mortos ilustres de uma determinada linhagem.

Não é espírito individual.

Não é entidade errante.

Não é manifestação isolada.

É a expressão espiritual coletiva de ancestrais reunidos sob um mesmo princípio de linhagem.

Quando uma pessoa morre e recebe os ritos corretos, torna-se ara-ọrun, habitante do mundo espiritual. Depois se integra ao campo ancestral da família e, com o tempo, deixa de ser apenas um nome individual para tornar-se força ancestral coletiva.

Aqui está a diferença fundamental.

No universo iorubá tradicional, em determinadas linhagens, a ancestralidade assume forma estruturada e institucional, constituindo uma herança que sustenta a continuidade do ser dentro da linhagem. Metaforicamente, pode-se dizer que Egúngún pode ser compreendido como a memória espiritual organizada da linhagem.

Tudo o que aquela família foi, viveu, errou, venceu e construiu permanece inscrito nesse campo ancestral. Ele não representa apenas continuidade espiritual, mas continuidade social, ética e normativa.


O CORPO RITUAL


No culto tradicional, Egúngún se manifesta através do Eku, o traje sagrado. Não se trata de fantasia ou representação teatral, mas de uma manifestação ritual reconhecida como presença ancestral. É a ancestralidade materializada.

Naquela roupagem não está um indivíduo, mas a memória viva de uma comunidade e a continuidade de uma linhagem de saberes teológicos, rituais e filosóficos. Por isso ninguém toca sem permissão, ninguém encara sem preparo, ninguém brinca com Egúngún.

O Eku funciona como condensador físico da memória ancestral. É como se toda a linhagem vestisse aquele corpo ao mesmo tempo.

Ali não há indivíduo.

Há princípio coletivo.


O QUE EGÚNGÚN NÃO É


Egúngún não é espírito errante.

Não é entidade solta.

Não é obsessor.

Não é guia pessoal.

Não é morto recente.

No universo tradicional, sua existência está vinculada à família estruturada, à linhagem reconhecida, ao sacerdócio legítimo e ao culto contínuo. Sem esses elementos, fala-se mais propriamente de espírito individual, e não da estrutura ancestral coletiva chamada Egúngún.


FUNÇÃO DA ANCESTRALIDADE


Egúngún não se limita ao consolo individual. Sua função principal é coletiva.

Não é apenas diálogo com os mortos, mas princípio ativo de manutenção da ordem moral e da continuidade da tradição. Egúngún intervém na correção de desvios éticos, restaurando o equilíbrio moral e social da família, reafirmando seus valores e responsabilidades compartilhadas e lembrando os vivos de que não estão separados da história coletiva.

Sua presença recorda que ninguém nasce isolado: cada indivíduo é continuidade de uma história. Egúngún não é apenas presença benevolente. É também instância de reequilíbrio, reafirmação e orientação. É a ancestralidade lembrando que sua vida não começa em você.


SÍNTESE


A ancestralidade africana é um sistema espiritual coletivo de memória viva, identidade, ética e continuidade do ser na comunidade. É defesa cultural e espiritual diante das rupturas históricas e das tentativas de desqualificação de seus fundamentos.

Nem a travessia do mar, nem o ardor do chicote nas costas, nem as múltiplas violências impostas ao longo da história puderam apagar essa continuidade.

Ancestralidade também é enfrentamento. É luta pela preservação do direito de existir como se é. É resistência diante das tentativas de apagamento.

Não é apenas herança; é afirmação. Mesmo em terras iorubas, onde o cristianismo e o islamismo expandiram-se ao longo dos séculos e onde a ancestralidade tradicional foi tensionada por ideologias de apagamento, seus fundamentos reorganizaram-se, coexistiram e, em muitos casos, preservaram seus princípios estruturais.

Ancestralidade não é objeto que se carrega; é essência que se manifesta na vida. Manifesta-se na escuta do oráculo, que orienta o rito e revela o caminho. Na roupa e nas cores. Na voz e no sorriso. No ritual, nas folhas e nas oferendas consagradas segundo a revelação oracular. Nos saberes, nos ofò e nos mitos que se transformam em ritos da cultura e memória ancestral.

Nas comidas, nas danças e nos tambores. Na cosmologia e na continuidade da própria linhagem. E quem reconhece suas raízes conhece sua identidade e aprende a insistir em ser. Sabe o tempo de trocar as folhas para fertilizar o chão que o sustenta. Sabe firmar-se contra as correntes de vento. Sabe a hora de florescer e exalar sua beleza e seu cheiro.

Sabe acolher a chuva e receber o sol. Sabe o valor de sua forma e de suas cores, que revelam quem é. Sabe devolver à natureza e aos seres humanos o àṣẹ que respira dentro de si. Oferecer a doçura dos frutos, a sombra, os remédios e os encantos.

E, em todas as estações, discernir o momento de semear novas sementes ou de afirmar seus espinhos. Tudo isso porque quem reconhece suas raízes sabe quem é, de onde vem, qual é sua direção e honra sua essência.

Ẹ̀pà Egúngún! Ẹ̀pà!

Ọ̀sányìnwumi

Bàbálọ̀sányìn Ẹ̀gbẹ́wọlé no Brasil

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Fonte:

FACEBOOK - Osanyinwumi

https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=892753577015799&id=100088434954773


Transcrição e adaptação: Luiz L. Marins

https://uiclap.bio/luizlmarins 

sexta-feira, 27 de março de 2026

SOLIPSISMO INTELECTUAL


A MENTE ISOLADA DO INTELECTUAL


Luiz L. Marins


07/03/2026


Quando dizemos que, para certos intelectuais, "só existe o seu próprio pensamento", estamos falando de um comportamento onde:


* O outro é descartado: Se o solipsismo filosófico diz que "outras mentes podem não existir", o solipsista intelectual age como se "outras mentes não tivessem conhecimento".


* Filtro de confirmação radical: Ele desconsidera pensamentos contrários não porque os refutou com provas, mas porque, dentro do sistema lógico dele, nada que venha de fora, isto é, do outro, tem para ele o mesmo "status" de realidade.


* Auto referencialidade: O intelectual solipsista - passa a citar a si mesmo - ou a um grupo restrito que pensa igual, criando um universo onde a realidade externa (as contestações ou as críticas) são tratadas como um ruído irrelevante, desconsiderando qualquer evidência contrária.


Ao intelectual é preciso policiar-se para não se tornar um solipsista intelectual, porque, a partir deste ponto todos perdem: ele e a sociedade.

sábado, 14 de março de 2026

TAMBOREIRAS: MULHERES QUE TOCAM TAMBOR

Coletamos este vídeo da página do Luiz L. Marins, fonte secundária, o vídeo se trata de mulheres tocando tambores, assim como no Batuque do RS que mulheres podem tocar tambores, sem tabu algum.

 





Fonte - https://www.facebook.com/watch/?ref=saved&v=2299355940475333

quarta-feira, 11 de março de 2026

MENTIR É TABU

Coletamos esta postagem do perfil Aje Nla omo Obatala , que fala sobre o tabu de Obatala.


 

"Mentir é um tabu.

Por  Aje Nla omo Obatala 

Postado em 09/03/2026


Temos visto muitos que se dizem sacerdotes e sacerdotisas de Obatalá, ou que afirmam ser filhos ou devotos de Obatalá, mas não conseguem passar neste teste.

Um mentiroso não pode ser associado a Obatalá.

Obatalá é a verdade.

Um mentiroso não é digno de ser chamado de filho de Obatalá.

Obatalá detesta mentirosos.

Ifá não é tão veraz quanto Obatalá.

Ifá não pode falar a verdade mais do que Obatalá.

Para se autodenominar filho de Obatalá, você deve viver na verdade.

Você deve falar a verdade o tempo todo.

Viver uma vida de veracidade é muito difícil para algumas pessoas, e você não pode ser mentiroso e também ser filho de Obatalá.

Ọbàtálá é prático; trabalhar com OBATALA significa que você deve permanecer verdadeiro o tempo todo.

No momento em que você começa a mentir, você está gradualmente se afastando de Ọbàtálá.

Portanto, se alguém lhe perguntar sobre o tabu do filho de OBATALA, apenas diga que Ọbàtálá odeia mentiras.

Nós somos AJE NLA, o filho de OBATALA.

Livros de AJE NLA na Amazon:

1. Códice de OBATALA
2. Leis de OBATALA
3. Ética de OBATALA
4. Montanhas de OBATALA
5. Caminho de OBATALA."

 

Fonte https://www.facebook.com/photo/?fbid=1426565272814715&set=a.460273879443864

Imagem comprobatória


  

terça-feira, 10 de março de 2026

ADẸ́DÀÁ - O Criador

 


 

" Adẹ́dàá " Normalmente, é um nome ou um atributo usado para descrever o Divino. Em iorubá, Adẹ́dàá se traduz literalmente como a fonte da criação, "O Criador".




ABRAHAM, R. C. Dictionary of Modern Yoruba, p. 173

* Adé: Este prefixo pode se referir a "aquele que cria" ou "aquele que traz à existência" neste contexto linguístico específico (do verbo ).

* : Criar, fazer ou causar a existência.

Geralmente, você o ouvirá usado na frase Adẹ́dàá Aṣẹ̀dá, que se refere a Deus como o "Criador e Originador" de todas as coisas.

             

Uso e Contexto

 

* Nomes: Embora " Adẹ́dàá " seja frequentemente um título para o Divino, pode aparecer em nomes compostos como Adẹ́dàmọ́lá (embora o "Ade" ali geralmente se refira a uma coroa).

* Espiritualidade: Na crença tradicional iorubá e no cristianismo/islamismo entre os falantes de iorubá, Adédàá é usado em canções e orações para reconhecer que os humanos não evoluíram do nada, mas foram "moldados" por um poder superior.

* Literário/Poético: É frequentemente usado em oríkì (poesia de louvor) para fundamentar a identidade de uma pessoa em sua origem divina.

Curiosidade

O nome Adẹ́dàá é poderoso porque se concentra no ato da criação. Na cultura iorubá, os nomes muitas vezes funcionam como "mini frases" que descrevem as circunstâncias de uma pessoa ou os atributos de Deus.

Aqui estão mais nomes e títulos iorubas que compartilham um tema semelhante de "criador" ou "origem divina":


1. Nomes relacionados a "Criador"


Se você gosta do significado de Adẹ́dàá , estes títulos para Deus são frequentemente usados ​​de forma intercambiável:

* Aṣẹ̀dá: Significa "O Originador" ou "Aquele que criou todas as coisas do nada". É quase sempre usado em conjunto com Adẹ́dàá (Adẹ́dàá Aṣẹ̀dá).

* Ẹlẹ́dàá: Significa "O Criador" ou "O Dono da Criação". Esta é uma das maneiras mais comuns pelas quais o povo iorubá se refere a Deus.

* Àdànímágbagbé: Um belo título longo que significa "O Criador que nunca se esquece daqueles que Ele criou".

* Àkọ́dá: Significa "O Primeiro a Criar" ou "O Primeiro Ser".

 

2. Nomes comuns com "Ade" (Coroa/Realeza)

 

Adẹ́dàá

Se refere à criação, a maioria dos nomes que começam com "Ade" se referem a uma Coroa ou Realeza.

Ẹlẹ́dàá mi

"Meu Criador" (Frequentemente usado quando alguém está orando ou expressando profunda gratidão pessoal).

Mo dúpẹ́ lọ́wọ́ Ẹlẹ́dàá mi

Eu agradeço ao meu Criador.

Adẹ́dàá mbẹ

O Criador vive/existe.

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Fontes:

Paula Gomes - Àsà Òrìsà Aláàfin Òyó

R. C. Abraham - Dictionary of Modern Yoruba

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Transcrição e adaptação: 

Luiz L. Marins

https://uiclap.bio/luizlmarins






 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A CONTRIBUIÇÃO DOS IORUBÁS PARA AS CULTURAS DO BENIN

 



Oba Adetutu Akinmu Afouda

Facebook, 17/02/2026

 

Professor John O. IGUE em:

"Deuses, Reis e Povo do Benin: Artes Antigas do Litoral às Savanas"

Os iorubás, com uma população de aproximadamente 829.509 pessoas (12,30% segundo o censo de 2002), são o segundo maior grupo étnico do Benin, depois dos aja-fon, cuja população chega a 3.686.021 (54,41%).

Assim como os aja-fon, eles habitam a parte sul do país, do litoral ao paralelo 9 norte, com alta concentração na parte leste do Departamento de Plateaux, na parte central do Departamento de Collines e na parte sul de Borgou (incluindo a cidade de Parakou e a comuna de Tchaourou) e Donga (incluindo Bassila, Manigri e Alédjo). Além das regiões sul e central do Benim, existem alguns núcleos populacionais iorubás dentro da etnia Bariba, no departamento de Alibori; estes são os Mokolé das aldeias de Angaradébou, Tui e Iya, na comuna de Kandi.

Apesar de seu pequeno número em comparação com os Aja-Fon, a influência iorubá na sociedade beninense permanece significativa. Essa influência pode ser mensurada em três níveis: padrões de assentamento, desenvolvimento cultural e atividades comerciais, em grande parte dominadas pelos iorubás de Porto-Novo. A importância dos iorubás no estabelecimento das diversas populações do Benim raramente é discutida em publicações sobre a história do país. Os poucos trabalhos que enfatizaram essa importância são de autoria do Padre Bertho, Pierre Verger, Paul Mercier, Montserrat Palau Marti e outros.

Culturalmente, as contribuições iorubás são evidentes na similaridade das instituições políticas tradicionais, práticas religiosas, estruturas habitacionais e outras expressões socioculturais, como vestimentas, hábitos culinários e artes visuais.

Este trabalho se concentrará em apenas dois aspectos: a importância dos iorubás no povoamento do Benin e suas contribuições para a cultura beninense.

- O povoamento iorubá no Benin:

Cinco fases de ocupação iorubá no Benin podem ser distinguidas.

1. A primeira, conhecida como pré-Oduduwa, consiste nos habitantes iorubás nativos que representam as fases mais antigas de povoamento no atual Benin. Esse povoamento pré-Oduduwa permanece crucial para o estabelecimento das populações do sul e do centro do país. Acredita-se que tenha afetado toda a costa sul, do mar até o nono paralelo norte. Vestígios dessa antiga ocupação são visíveis no terreno entre o sexto e o oitavo paralelos norte, através da presença de antigas populações Igédé (Guédévi de Abomey) e Ifé nos distritos de Tchetti e Dumè, na comuna de Savalou, Ifita e Idaïtcha, nas comunas de Dassa-Zoumé e Glazoué, e Iloji e Itcha, em Bantè.

Pouco se sabe sobre as origens desse assentamento pré-Oduduwa. Contudo, pode-se considerar que tenha se originado em Ifé, com base no nome e na importância das oficinas de fabricação de contas, as mais antigas das quais estão localizadas em Ilé-Ifé, segundo as fontes disponíveis até o momento.

2. A segunda fase data entre os séculos XIII e XIV. Resultou da migração dos descendentes de Oduduwa, o ancestral mítico dos iorubás. Acredita-se que essa migração tenha afetado a parte leste do Benin e dado origem a três entidades políticas: Sabè, Kétou e Popo. Sabè e Kétou ainda existem como reinos; no entanto, o território de Popo permanece difícil de definir. É altamente provável que Popo tenha formado a base do assentamento iorubá de Ajàsè e Akoro, com quem Tê Agbanlin negociou o poder antes de se estabelecer em Porto-Novo. Essa hipótese se baseia na existência de um templo de Oduduwa no distrito de Akron (Akoro) de Porto-Novo. Esse altar de Oduduwa está entre os deuses mais importantes da cidade de Porto-Novo, assim como em Sabè e Kétou.

O assentamento dos descendentes de Oduduwa ocorreu às custas do povo pré-Oduduwa. Contudo, as tradições relatam que os reinos fundados pelos descendentes de Oduduwa só se tornaram efetivos após negociações com os povos indígenas chamados "Ojudu" em Sabè e "Ifon" em Kétou, etc. A formação de alianças com esses povos indígenas permitiu que eles participassem da administração do poder por meio da nomeação de certas figuras importantes. Foi o caso em Ketou com os ministros Akiniko e Ajahossou. Esses ministros do assentamento original desempenharam um papel importante na nomeação de cada rei em Ketou. Na entronização do rei (alakétou), ele recebia primeiro o fogo, um símbolo de coexistência, do povo Ifon.

3. A terceira fase da ocupação iorubá foi realizada pelo povo originário de Oyo. Esse assentamento de Oyo afetou as fronteiras sudeste dos reinos criados pelos descendentes de Oduduwa. Além desses grupos Oyo, que serviram de pano de fundo e foram responsáveis ​​pela fundação dos reinos de Ohori (Comuna de Kpobè) e Ifohin (Comuna de Ifanhin), a floresta remanescente do Planalto de Sakété-Pobè foi repovoada por refugiados Egba e Egbado durante a Guerra de Owu, por volta de 1820. Os estados "Ohori" e "Ifohin" foram criados entre 1650 e 1700 para servirem como postos avançados nas conquistas de Daomé pelo Alaafin Ojigi. Mas o florescimento desses estados foi garantido principalmente pelo fato de serem atravessados ​​pelas rotas comerciais que ligavam Oyo-Ilé aos portos de Badagry e Ajasè (Porto-Novo).

Depois vieram os iorubás descendentes do tráfico de escravos. Há dois grupos:

a) os iorubás não vendidos que atualmente povoam os antigos portos negreiros de Ouidah, Godomey, Abomey-Calavi e Zinvié;

b) e aqueles que retornaram do Brasil e de Serra Leoa entre 1840 e 1860. Esses iorubás se estabeleceram entre os escravos não vendidos dos mesmos antigos portos negreiros, particularmente Ouidah.

Essas diferentes fases de assentamento iorubá foram posteriormente enriquecidas por uma recente migração da Nigéria. Essa migração afetou principalmente os principais centros urbanos. Esses iorubás vieram principalmente da província de Oyo, especificamente das cidades de Saki, Igboho, Ogbomèsho, Ofa, Ejigbo, Isèyin e Okeho. Eles se dedicavam principalmente a atividades comerciais. Os iorubás atuais do Benin descendem dessas cinco ondas de assentamento, cujo papel permanece crucial na cultura beninense.

A importância cultural dos iorubás na sociedade continua sendo um elemento importante da civilização beninense. Essa influência cultural derivou da dominação política que Oyo exerceu inicialmente sobre Abomey e da subsequente vassalagem dos reinos de Sabè e Kétou por este último, a partir de 1870. Foi a partir desses elementos políticos que essa influência cultural iorubá se espalhou para outras sociedades beninenses. Essa influência pode ser medida nos níveis político, religioso e urbano. Isso também resultou de um longo processo de mistura cultural que ocorreu entre os grupos Aja-Fon e Yoruba desde o período pré-Oduduwa.

No âmbito político, o impacto da cultura Yoruba nas instituições políticas Aja-Fon foi particularmente destacado por Paul Mercier, Montserrat Palau Marti e Isaac Adeagbo Akinjogbin. Em sua tese, "Dahomey and its Neighbors" (Daomé e seus vizinhos), o professor Akinjogbin demonstrou claramente como todas as instituições políticas Aja-Fon são baseadas no parentesco (ou seja, "èbi"), assim como na Iorubalândia.

[O primeiro aspecto é] a manifestação de tal instituição [que] é sentida, antes de tudo, na natureza eletiva do rei, no fato de os príncipes não possuírem poder no reino e na vagueza do conceito de nobreza. Assim, cada príncipe tem total liberdade para se casar com qualquer mulher do reino, inclusive uma escrava; da mesma forma, uma princesa tem a opção de se casar com um plebeu. Essa noção de parentesco também explica a importância do conselho real em todos os reinos Aja-Fon. Assim como na Iorubalândia, cada membro do conselho permanece ligado a uma linhagem. O peso do parentesco nessas instituições mina a noção de feudalismo tal como era entendida nas instituições sociopolíticas africanas.

O segundo aspecto da semelhança entre as instituições políticas Aja-Fon e as dos Ioruba é a natureza sacrossanta dos reis, como Palau Marti demonstrou em sua obra "O Rei, Deus em Benin". Em Tado, Abomey e Porto-Novo, bem como em Ile-Ife e Oyo, certos reis são elevados à divindade após a morte e, assim, tornam-se líderes eternos. É o caso de Oduduwa em Ile-Ife, Alaafin Sango em Oyo e o Rei Adjahouto em Allada. Willington D. Jones e Auguste Le Hérissé escreveram corretamente, o primeiro falando de Oyo e o segundo de Abomey, que a natureza quase divina dos mortos confere à história um ar de mistério. A história assume um caráter sagrado; não é meramente o registro das glórias de uma tribo fundadora de um reino, mas também aborda o milagroso. Mas é na esfera religiosa que a influência iorubá permanece decisiva nas culturas do Benin. Essa influência pode ser analisada em três níveis:

1. O número de deuses que constituem o panteão iorubá, composto por quatrocentos e um deuses chamados "orixás". Os mais importantes desses deuses são Nana Buruku, Oduduwa, Obatala, Ogun, Sanpona e Sango. Todos esses orixás, chamados vodun no sul do Benin, constituem todo o panteão Aja-Fon.

2. Em todos os templos do sul do Benin, a língua de iniciação é o Nagô; da mesma forma, Nagô é usado pelos fiéis desses cultos, e os títulos ostentados por dignitários frequentemente estão em Nagô. Por exemplo, as origens Nago-Iorubá do vodu Sapata são atestadas pelo fato de que, durante sua iniciação, os futuros sapatasi, pessoas consagradas a Sapata, são chamados de anagonou.

3. O peso dominante da influência cultural Iorubá sobre as populações do sul do Benin não se deve apenas ao fato de a origem cultural do assentamento ser Iorubá, mas também a um processo de enxertia e mecanização.

Essa mistura cultural foi tecida pelas contribuições dos traficantes de escravos, predominantemente de origem iorubá. A condição de escravos desses iorubás os impediu de se afirmarem politicamente. É principalmente no nível cultural que eles mantiveram sua influência. Durante as cerimônias de nascimento e morte, esses grupos expressam sua afiliação cultural. Muitos deles mantiveram seus nomes iorubás, enquanto outros adotaram nomes Aja-Fon e se identificam como iorubás apenas por meio de poemas de saudação (oriki). A influência desses escravizados, particularmente daqueles que não foram enviados para as Américas, é crucial na disseminação do [culto de] oro e egungun dentro da comunidade Aja.

Quanto aos iorubás que retornaram do Brasil, poucos se lembram de suas origens. Eles preferem manter seus nomes portugueses ou brasileiros, diferentemente do que aconteceu em Abeokuta, onde a maioria dos escravizados que retornaram de Serra Leoa ou do Brasil retomaram seus nomes iorubás. A consciência brasileira ou portuguesa se desenvolveu ainda mais porque esses escravos constituíram, por muito tempo, a primeira camada de intelectuais naquele país, sobre os quais os europeus se apoiaram para estabelecer sua administração e as estruturas da economia do tráfico de escravos. Essa situação fortaleceu ainda mais a consciência de classe desses "afro-brasileiros" nessa região sul do Benin. Essa consciência se enraizou ainda mais profundamente por estar firmemente estabelecida dentro das forças imperialistas. Isso deu a esses ex-escravos a oportunidade de se vingarem dos comerciantes Aja-Fon que os venderam aos traficantes de escravos portugueses. Foi praticamente pela recusa em se integrar a um meio que não era originalmente o seu que esses escravos, retornando do Brasil, conseguiram formar um grupo distinto, chegando a praticar a endogamia para melhor resistir à pressão que a sociedade pudesse exercer sobre eles.

Com base nessas observações, poderíamos evitar considerar os "afro-brasileiros do Benin" como iorubás. Mas, além de uma aparência brasileira, muitos ainda falam iorubá em suas comunidades. Além disso, diante do desenvolvimento da consciência africana, manifestada hoje por um retorno à autenticidade, a maioria dos afro-brasileiros abandonou suas máscaras para vivenciar intensamente sua cultura iorubá. Exemplos disso são as famílias Da Sylva e Paraíso, em Porto-Novo, e a família Prudêncio, em Ouidah. Esse retorno à autenticidade iorubá fortaleceu a presença da cultura iorubá na comunidade Aja-Fon por meio do culto aos espíritos (egungun).

A manifestação final da cultura iorubá é o desenvolvimento urbano. De fato, um dos aspectos singulares da civilização iorubá reside no crescimento excepcional de suas cidades tradicionais. Os iorubás, assim como os hauçás, são predominantemente urbanos antes de se tornarem rurais. As cidades iorubás, portanto, constituem os principais centros de sua civilização. Essas cidades abrangem várias gerações e influenciaram outras civilizações, particularmente as do sul do Benin. Essa civilização urbana expandiu-se para além de suas fronteiras originais, incluindo Tado (Togo), o berço do povo Aja-Fon, bem como Allada, Porto-Novo e Abomey. Suas características essenciais baseiam-se em três elementos principais:

1. um imponente palácio real em torno do qual a cidade se estrutura;

2. um mercado em frente ao palácio e fortificações compostas por um fosso;

3. uma muralha ou ambos, atravessadas por um ou mais portões.

A influência cultural iorubá permanece significativa no Golfo do Benim. Originária de Ile-Ife (atual Nigéria), essa cultura se espalhou até Accra (Gana), moldando a população de tal forma que os povos entre o Delta do Níger e a foz do Rio Volta são profundamente influenciados pela herança cultural iorubá. Essa herança se manifesta principalmente no papel significativo da religião na sociedade. Embora os verdadeiros iorubás tenham começado a se distanciar da forte influência das religiões tradicionais, estas permanecem vibrantes no Benim por meio do conceito de "vodun", demonstrando assim a extensão em que essa cultura iorubá foi apropriada e internalizada pelo povo de origem Aja-Fon.

Imagens:

Foto 1: Para os Fon de Abomey, Goun desempenha o mesmo papel de Ogoun entre os Yorubá.


Foto 2: Eshou, guardião da cidade de Oshogbo, e Lègba, guardião das casas de Abomey.

Foto 3: O sacerdote Sango, Osogbo, Nigéria; Cerimônia de Sango em Ouidah; Altar Sango em Sakete.

Foto 4: O Vodunsi de Zomadonu Allada;

Os Gunguns em Alexandre d'Albeca, *La France au Dahomey*, Paris, Hachette, 1895; Bênçãos dos bebês Fon ou Nagô pelos espíritos dos ancestrais, Porto-Novo.

 

 Fonte: Oba Adetutu Akinmu, Onishabè

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Transcrição e adaptação: Luiz L. Marins

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Tradução digital Google revisada.




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