sábado, 17 de outubro de 2026

QUINZE SOBRENOMES BRASILEIROS QUE REVELAM SEUS ANTEPASSADOS ESCRAVOS

Canal Janela do Tempo

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Setembro de 2026

 

 

 

O Brasil é um país que carrega dentro de si muitos brasis ao mesmo tempo. Por aqui passaram povos africanos de dezenas de nações diferentes arrancados de suas terras. E cada um deles, mesmo sem escolha, deixou sua marca na forma como hoje nós chamamos. Sobrenomes inteiros nasceram de batismos forçados, de igrejas, de fazendas, de senhores e também da própria luta por liberdade.


Famílias inteiras carregaram esses nomes por gerações, sem saber muitas vezes que dentro deles havia séculos de dor, fé e resistência. E o mais impressionante é que muitos desses sobrenomes são tão comuns hoje que quase ninguém para para pensar de onde vieram. Eles atravessaram a escravidão, a abolição, o século XX, e chegaram até você, talvez no seu próprio sobrenome ou no de alguém que você conhece. Se o seu sobrenome é um dos que vamos falar aqui, pode ser que suas raízes se conectem com essa história profunda do Brasil colonial e imperial.

 

Hoje você vai descobrir 15 desses sobrenomes e a história que eles escondem. De cada um vou te contar de onde ele surgiu, o que significa e por ele ficou tão ligado à experiência da escravidão no Brasil, com base em pesquisas históricas e registros documentados por especialistas em genealogia afro-brasileira. Nada inventado. Fique até o número um, porque ele esconde um dos sobrenomes mais simbólicos de toda a história da liberdade no Brasil.


 E aqui a verdade antes de começarmos. Esses sobrenomes não são certidões de nascimento genealógicas. Eles nasceram, em muitos casos, de batismos católicos, de registros feitos às pressas depois da lei áurea ou da adoção do nome de antigos senhores. Por isso, eles são uma pista histórica poderosa. Mas atenção, ter um desses sobrenomes não prova sozinho de qual família específica você descende, porque o mesmo sobrenome foi dado a milhares de pessoas diferentes em contextos parecidos.


Encare isso como uma viagem pela história e pela memória negra do Brasil, não como um exame de DNA. Vamos começar:


15. Nascimento


Começamos com um sobrenome de som suave, mas de origem dura. Nascimento é um dos sobrenomes mais comuns entre famílias afrodescendentes no Brasil. Ele vem da prática batismal da Igreja Católica, que registrava recém-nascidos sem pai reconhecido, muitas vezes filhos de mulheres escravizadas com o sobrenome do nascimento, em referência ao nascimento de Cristo.

Era uma forma padronizada de dar um nome a quem, segundo a lógica cruel da época, não tinha família reconhecida no papel, da pia batismal. Esse sobrenome se espalhou por todo o Brasil e se tornou um dos mais numerosos entre a população negra do país. É curioso como um nome dado deforma tão burocrática, quase impessoal, se transformou em sobrenome de milhões de famílias que hoje o carregam com orgulho. Mas era assim que funcionava.


Quem nascia sem um sobrenome de família recebia o nome da igreja e seus filhos e netos o herdavam para sempre. Historiadores que estudam registros paroquiais do período colonial apontam que essa prática se repetia em praticamente todas as capitanias, de Pernambuco ao Rio de Janeiro, sempre seguindo a mesma lógica. Quem chegava aos livros da igreja sem um sobrenome de família recebia um nome ligado diretamente ao calendário litúrgico.


Isso significa que hoje milhões de brasileiros carregam no mesmo sobrenome o eco de um sistema de fé que funcionava paralelamente ao sistema de propriedade escravista, registrando pessoas ao mesmo tempo em que negava a elas o direito a uma genealogia reconhecida. Quem carrega esse sobrenome carrega sem saber o eco de um batismo que tentou apagar uma origem, mas que virou memória viva. Um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome. E isso é só o começo.


Ainda faltam 14 sobrenomes transformados em memória, com fazendas inteiras, irmandades de fé e nomes que declaravam liberdade em pleno século XIX.


Se você está pensando no seu próprio sobrenome agora, deixe nos comentários e me conta se algum deles é o seu. E seguimos essa jornada pela história do Brasil.


14. Conceição


Conceição é um sobrenome que denuncia, à primeira vista sua origem religiosa. É uma referência à Nossa Senhora da Conceição, uma das devoções mais fortes do catolicismo colonial brasileiro. Assim como nascimento, esse sobrenome foi dado sistematicamente a crianças batizadas sem um sobrenome de família reconhecido. Uma prática extremamente comum entre filhos de mulheres escravizadas, já que a lei da época não reconhecia vínculos formais de parentesco para essa população. O nome da santa, repetido em milhares de registros paroquiais por todo o Brasil, se tornou sobrenome de gerações inteiras. é um sistema que existiu por séculos, ligando igreja e escravidão numa única prática de nomeação.

 

Conceição guarda assim a lembrança de um batismo que, ao mesmo tempo que tentava inserir a pessoa na sociedade cristã, também apagava sua origem africana original. É importante entender a escala desse fenômeno. Não estamos falando de casos isolados, mas de um mecanismo administrativo e religioso que se repetiu de forma sistemática por gerações em todas as regiões onde a escravidão foi predominante. Cada paróquia mantinha seus próprios livros de batismo, e o padrão de nomeação por devoções marianas e cristológicas se tornou, com o tempo, quase um sobrenome de default para uma parcela inteira da população brasileira.


Quem o carrega arrasta o nome de uma santa que se tornou família, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.

 

13. Santos

 

Santos é hoje um dos sobrenomes mais comuns em todo o Brasil e sua origem tem uma ligação direta e bem documentada com a escravidão. Quando uma pessoa escravizada era batizada ou registrada sem um sobrenome de família conhecido, os padres e cartorários frequentemente a registravam como dos santos, numa referência genérica ao conjunto dos santos católicos, uma espécie de sobrenome coringa para quem não tinha um.


O que é certo é que Santos se tornou, ao longo dos séculos XIX e XX um dos sobrenomes mais associados a famílias afrodescendentes em todo o país, especialmente depois da abolição, quando milhões de pessoas libertas precisaram, pela primeira vez, registrar um nome completo perante o Estado.


Da pia batismal e dos cartórios da abolição, o sobrenome se espalhou por todo o Brasil. Quem o carrega arrasta o nome de uma prática que tentou apagar identidades, mas que virou parte da identidade de milhões. Um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


12. Jesus.

Jesus, um sobrenome direto e poderoso, esconde a mesma lógica religiosa dos anteriores.


De Jesus era atribuído a crianças e adultos escravizados no momento do batismo como forma de inserção simbólica na fé católica, mas também como consequência da ausência de sobrenome de família reconhecido oficialmente.


Era um caso clássico e extremamente comum em todo o Brasil colonial. Os padres batizavam recém-chegados da África ou filhos nascidos em cativeiro com nomes ligados diretamente à figura central do cristianismo. E esse nome, passado de geração em geração, acabou virando sobrenome de família, de Jesus, do nascimento, da Conceição, dos santos, todos escondem o mesmo mecanismo.


A igreja registrando quem a escravidão tentava deixar sem nome. Cada vez que alguém diz Jesus como sobrenome, pronuncia, sem saber, o resultado de um sistema de fé imposto há mais de 200 anos, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


11. Espírito Santo


Espírito Santo segue essa mesma tradição religiosa, mas guarda um capítulo à parte. Esse sobrenome era comum principalmente em regiões onde havia forte devoção à festa do divino Espírito Santo, celebração que reunia senhores e escravizados nas mesmas festividades religiosas, ainda que em posições completamente desiguais.


Durante o período colonial em diversas regiões do Brasil, as festas do divino Espírito Santo eram um dos raros momentos em que pessoas escravizadas podiam participar de celebrações públicas, cantar, dançar e, por vezes, negociar pequenas liberdades simbólicas dentro de um sistema rígido de opressão.


Muitos descendentes de participantes dessas festividades acabaram herdando o sobrenome ligado à celebração. Aquele esplendor de fé e resistência terminou junto com a abolição formal do sistema, mas deixou ao Espírito Santo um lugar único na memória religiosa afro-brasileira.


Em algumas regiões do interior, os festejos incluíam a coroação de um imperador do divino, cargo que, em determinados anos e localidades, chegou a ser ocupado por homens negros libertos, um gesto simbólico, raro de inversão temporária, de hierarquias dentro de uma sociedade rigidamente dividida por cor e condição social. Esses episódios, ainda que pontuais, ajudam a explicar or o nome da festa acabou incorporado como sobrenome de tantas famílias.


Quem carrega esse sobrenome arrasta o nome dessa festa, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome. Estamos chegando à metade e agora vem os sobrenomes mais simbólicos e surpreendentes. Irmandades negras, mitos que quase todo mundo acredita e um nome que não significa o que você imagina. E agora seguimos.


10. Rosário


Rosário é um sobrenome com uma origem particularmente forte dentro da história da resistência negra no Brasil. Ele remete a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, uma devoção específica criada e mantida por confrarias e irmandades formadas por pessoas escravizadas e libertas em praticamente todas as regiões do país.


As irmandades não eram apenas espaços religiosos, eram também redes de apoio mútuo, onde os membros juntavam recursos para comprar a alforria de irmãos de fé, organizavam funerais dignos e preservavam tradições culturais africanas dentro de uma estrutura tolerada pela Igreja Católica. Era um sistema de solidariedade que existiu por séculos dentro das brechas permitidas pelo sistema escravista.


Essas irmandades chegaram a construir igrejas próprias em cidades como Salvador, Recife e Ouro Preto, erguidas com o próprio esforço financeiro de seus membros, muitas vezes trabalhando em jornadas extras para juntar recursos. Dentro delas elegiam-se reis e rainhas simbólicos, figuras de liderança que preservavam tradições de reinos africanos dentro da estrutura católica permitida pela coroa. Um equilíbrio delicado entre resistência cultural e sobrevivência dentro de um sistema opressor.


Do rosário, guarda assim a lembrança de uma das formas mais organizadas de resistência coletiva negra no Brasil colonial. Quem o carrega arrasta o nome de uma irmandade de luta e fé, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


9. Bento


Bento é outro sobrenome de forte raiz religiosa ligado a São Bento, mas com uma nuance importante quando falamos da população negra brasileira. A devoção a São Benedito, o santo negro mais popular do catolicismo brasileiro, padroeiro de irmandades de homens pretos em praticamente todo o país, frequentemente se confundia e se misturava com o culto a São Bento na hora dos registros e nomeações.


São Benedito era retratado como um santo de pele negra, cozinheiro de convento, e se tornou uma figura de identificação e orgulho para milhares de pessoas escravizadas e libertas, que viam nele um símbolo de dignidade dentro de uma religião imposta pelos colonizadores.


Muitas famílias adotaram Bento como sobrenome, em homenagem direta a essa devoção. E um dos casos mais bonitos que a história de nomeação brasileira guarda. Igrejas dedicadas a São Benedito se espalharam por regiões mineradoras e açucareiras, e sua imagem, sempre representada como um homem negro vestido de hábito franciscano, se tornou um dos poucos exemplos de representação positiva e sagrada da negritude dentro da religião oficial do período colonial.


Não é exagero dizer que para muitas famílias adotar Bento como sobrenome também uma forma silenciosa de afirmar orgulho e pertencimento dentro de um mundo que insistia em negar humanidade à população negra. Quem carrega esse sobrenome arrasta o nome de um santo negro que virou símbolo, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome. O próximo esconde um significado bem diferente do que a maioria imagina.


8. Freitas


Freitas é um sobrenome extremamente comum entre famílias afrodescendentes no Brasil e sua origem é, na verdade, bem diferente do que muita gente imagina. Os especialistas em etimologia mostram que


Freitas vem do latim fracta, palavra que significa quebrado e que deu nome a terrenos pedregosos e acidentados em Portugal. É um sobrenome toponímico, ligado a um lugar de pedras partidas. Não há nenhuma ideia direta de liberdade, ainda que o som da palavra hoje lembre expressões ligadas a estar livre ou solto.


O que aconteceu, segundo pesquisadores da genealogia afro-brasileira, é que depois da abolição, o sobrenome se popularizou entre famílias negras recém libertas, muitas vezes por ter sido o nome de propriedades ou de antigos senhores de terras onde essas famílias viveram e trabalharam.

 

Quem carrega esse sobrenome arrasta um nome muito mais antigo e diferente do que parece, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


7. Moraes


Moraes, também escrito Morais, revela um mecanismo completamente diferente dos anteriores e talvez o mais direto de todos. A adoção do sobrenome do antigo Senhor.


Depois da lei Áurea em 1888, milhões de pessoas libertas precisaram, pela primeira vez na vida, se apresentar ao Estado com nome e sobrenome completos, algo que o sistema escravista simplesmente nunca havia exigido. Diante da urgência e da falta de outra referência, muitas famílias libertas adotaram o sobrenome da família que as havia escravizado, seja por vínculo afetivo real, construído ao longo de gerações, seja por pura necessidade prática, já que era o único sobrenome que conheciam e que podia, em teoria oferecer alguma proteção social num Brasil ainda profundamente racista. 


Moraes era um sobrenome de família de proprietários rurais em diversas regiões do país e se espalhou dessa forma entre milhares de famílias negras.


Pesquisadores de história social apontam que esse fenômeno, conhecido em estudos de genealogia como herança onomástica de propriedade é hoje uma das ferramentas mais usadas por descendentes de escravizados que tentam reconstruir sua árvore genealógica. 


Já que rastrear o sobrenome até a família de fazendeiros correspondente muitas vezes permite localizar em inventários e registros de escravizados o próprio nome do antepassado antes da liberdade. Quem o carrega arrasta a marca direta e crua dessa transição forçada da escravidão para a liberdade. Um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


6. Fonseca


Fonseca segue essa mesma lógica de sobrenome herdado de proprietários, mas com uma camada histórica interessante ligada à ocupação de terras. Fonseca é originalmente um sobrenome português toponímico, ligado a fontes e nascentes de água, mas no Brasil se tornou comum entre famílias negras, justamente por ser o sobrenome de famílias latifundiárias em regiões de forte presença escravista, como partes de Minas Gerais. e do Rio de Janeiro.


Trabalhadores escravizados que viviam e trabalhavam nas terras de famílias Fonseca frequentemente acabavam registrados após a abolição com esse mesmo sobrenome, criando um laço documental permanente entre o nome da terra, o nome do Senhor e a identidade da nova família livre. É um padrão que se repete em sobrenomes de origem toponímica portuguesa por todo o Brasil.


Em Minas Gerais, especialmente, esse padrão aparece de forma muito clara nos sensos pós-abolição, quando bairros e distritos inteiros passaram a concentrar famílias negras, com o mesmo sobrenome de família de antigos proprietários de terras e minas, revelando, através de um simples nome, o mapa exato de onde essas famílias viveram e trabalharam por gerações antes de conquistarem a liberdade formal. Quem carrega esse sobrenome arrasta o nome de uma fazenda e de um sistema que unia terra, poder e pessoas, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


5. Fonseca


Fonseca é um sobrenome menos comum, de origem bíblica, associado a uma região citada nas Escrituras cristãs. Segundo pesquisadores de genealogia afro-brasileira, sobrenomes de origem bíblica como esse eram, em alguns casos, escolhidos por padres ou pelos próprios libertos no momento do batismo ou do registro civil, num gesto quase poético de recomeço, num Brasil, onde o nome completo passou a ser exigido oficialmente, sobretudo depois da abolição.


Diferente de muitos outros sobrenomes desta lista, que nasceram de processos coletivos e repetidos em milhares de casos semelhantes, esse carrega uma dimensão mais individual, quase pessoal, ligada ao ato específico de conquistar e registrar a própria liberdade diante de um tabelião, num momento que para quem vivia isso, era certamente um dos mais importantes de toda a vida.


Quem carrega esse sobrenome arrasta à memória de um documento de liberdade conquistada, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


4. Cordeiro


Cordeiro tem um nome que já revela tudo sobre sua força simbólica. Vem diretamente da imagem do cordeiro de Deus, um dos símbolos centrais do cristianismo, associado ao sacrifício e à redenção. Imagine que para uma população inteira submetida ao sofrimento da escravidão, essa imagem carregava um peso espiritual enorme e por isso o nome se popularizou como sobrenome entre famílias negras batizadas dentro dessa tradição.


Além do significado religioso, cordeiro também existia como sobrenome de família portuguesa e foi, em algumas regiões, adotado por trabalhadores que viviam em propriedades de famílias com esse nome. É de novo aquele cruzamento entre fé imposta e vínculo de propriedade que molda boa parte dos sobrenomes negros brasileiros.


Em cânticos e rituais das próprias irmandades negras, a figura do cordeiro sacrificial aparecia com frequência como metáfora do sofrimento vivido em cativeiro e da esperança de redenção, seja espiritual, seja terrena, através da alforria. Essa dupla camada de significado religiosa e existencial ajuda a explicar porque o nome se manteve tão presente entre famílias negras ao longo de gerações, muito depois do fim formal da escravidão.


Quem carrega esse sobrenome arrasta o símbolo de sacrifício e redenção mais forte do catolicismo colonial, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


3. Firmino


Firmino um sobrenome de origem latina relacionado à ideia de firmeza e constância, ganhou um significado particular no contexto da escravidão brasileira.


Registros de irmandades religiosas negras do século XIX mostram esse nome associado a lideranças dentro dessas organizações de resistência e apoio mútuo entre pessoas escravizadas e libertas. 


Historiadores que estudam a formação da identidade negra pós abolição apontam que nomes ligados a ideias de firmeza, força e permanência ganharam popularidade justamente num momento em que a comunidade negra recém-liberta precisava reconstruir sua identidade e sua dignidade diante de uma sociedade que continuava profundamente racista, mesmo depois do fim formal da escravidão.


Segundo pesquisadores que estudam a onomástica pós-abolição, nomes ligados a ideias de firmeza e permanência ganharam popularidade justamente no momento em que famílias negras recém libertas precisavam, pela primeira vez, registrar oficialmente uma identidade que fosse só sua, escolhida por elas mesmas e não herdada de um sistema de propriedade.


Quem carrega esse sobrenome arrasta o significado de uma firmeza conquistada à força, um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


2. Silva


O número dois vai te surpreender porque quase todo mundo acha que sabe de onde vem esse sobrenome e quase todo mundo erra.


Silva é disparado, um dos sobrenomes mais comuns entre toda a população brasileira negra e branca. A lenda popular diz que ele simplesmente veio de Portugal com os colonizadores e se espalhou por acaso. É uma meia verdade. O que os pesquisadores mostram é mais interessante.


Silva, por ser um sobrenome português extremamente genérico e comum, sem ligação com nenhuma família nobre ou proprietária específica, se tornou o sobrenome padrão dado a pessoas sem vínculo familiar documentado, incluindo um número enorme de pessoas escravizadas e libertas, registradas às pressas depois da abolição. Não era um sobrenome de prestígio, era na prática o sobrenome de quem não tinha outro para registrar.


Por isso, hoje Silva aparece de forma esmagadora entre famílias afrodescendentes em todo o Brasil, não porque descendessem de uma única família portuguesa chamada Silva, mas porque era o nome mais fácil e mais neutro para preencher um espaço em branco no papel.


Estudos demográficos sobre sobrenomes no Brasil mostram algo revelador.


A concentração de Silva é proporcionalmente ainda maior entre a população autodeclarada preta e parda do que entre a branca, justamente por causa dessa origem ligada à ausência de registro familiar formal. é um dos exemplos mais claros de como um sobrenome aparentemente neutro pode, na verdade, carregar dentro de si a marca estatística de um processo histórico de apagamento.


Quem carrega esse sobrenome arrasta um nome muito mais burocrático e muito menos nobre do que a lenda popular conta. Um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


1. Liberato


O número um é um dos sobrenomes mais simbólicos e emocionantes de toda essa história. Liberato, e sua variação libó tem uma origem que não deixa dúvida nenhuma. Vem diretamente do latim liber, que significa livre. Diferente da maioria dos sobrenomes desta lista que nasceram de batismos genéricos ou da adoção do nome de antigos senhores, Liberato era, em muitos casos documentados, uma escolha consciente e deliberada.


Historiadores que estudam o pós-abolição mostram que nos dias e semanas seguintes, a 13 de maio de 1888, data da assinatura da lei Áurea, cartórios de todo o país viveram um movimento inédito de pessoas recém libertas, buscando, pela primeira vez na vida, existir formalmente perante o Estado brasileiro, muitas delas escolhendo pela primeira vez um sobrenome próprio.


Não era herança de Senhor, não era imposição da igreja, era uma afirmação. Em uma única palavra, cabem a dor da escravidão, a luta pela abolição e a alegria da liberdade conquistada.


Liberato se destaca justamente por não deixar margem de dúvida sobre sua intenção. Era literalmente a palavra liberdade, transformada em identidade permanente, passada depois para filhos, netos e bisnetos.


Liberato guarda ainda um dos maiores tesouros simbólicos da história brasileira. A prova documental de que a liberdade para muitos não foi apenas recebida, foi escolhida e declarada.


Se o seu sobrenome é Liberato ou Libório, você carrega um dos nomes mais conscientes e emocionantes que sobrevivem no Brasil. Um pedaço da história negra do Brasil no seu sobrenome.


Recapitulando essa viagem pela história do Brasil. Nascimento, o batismo sem família reconhecida. Conceição, o nome de uma santa que virou família. Santos, o sobrenome Coringa da fé colonial. Jesus, a inserção forçada na religião do colonizador.


Espírito Santo, a festa que reunia senhores e escravizados. Rosário, a irmandade de resistência e fé. Bento, o santo negro que virou símbolo. Freitas, o sobrenome que não significa o que você pensava. Moraes, a marca direta do antigo senhor. Fonseca, o nome da fazenda que virou identidade. Libânio a memória de uma carta de alforria.


Cordeiro, o símbolo máximo de sacrifício e redenção. Firmino, a firmeza reconstruída depois do cativeiro. Silva, o sobrenome mais comum e menos nobre do que parece, e Liberato, a liberdade escolhida e escrita em uma única palavra. Lembre-se, esses sobrenomes são um mapa e uma memória da história negra do Brasil, não um certificado de sangue.


Carregar um deles não diz exatamente de qual família específica você descende. Só a genealogia documentada pode dizer isso com precisão. Mas cada um desses nomes carrega dentro de si séculos de fé, sofrimento, resistência e, em alguns casos, a própria conquista da liberdade escrita a próprio punho.


Agora me diga nos comentários, algum desses sobrenomes é o seu ou de alguém da sua família e você sabia o significado por trás dele?


Se você chegou até aqui, compartilhe, por favor.

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https://www.youtube.com/watch?v=wwW9n0YY1Ck

Canal Janela do Tempo, Youtube

Setembro de 2026

 

Transcrição, adaptação e layout, por

Luiz L. Marins – https://uiclap.bio/luizlmarins

Em 17/10/2026

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

KITEMBO E A CASA DE ANGOLA: CARACTERÍSTICAS ÚNICAS

Registramos esta publicação postada no perfil Erick Wolff do Facebook, na data 12 set de 2026.

Na postagem sobre Kitembu não ser um Exu, existem comentários falando sobre o Exu do Tempo/ Kitembu cultuado na família do Pai Cleon. 

 




 

"KITEMBO E A CASA DE ANGOLA: CARACTERÍSTICAS ÚNICAS
Por Erick Wolff
Postado em 12/09/2026

Pai Diego de Yemanjá
Acho que então o senhor devia internar uma família e uma goa imensa ( se não uma das maiores de extensão do RS ).
Obs: no caso descendentes do meu avô
🤪

Andrew Monteiro
[Pai Diego de Yemanjá], eu não estou entendendo o porquê desta pauta. Nós, Cabinda descendentes de PC, não cultuamos Kitembo. Cultuamos Exú do Tempo meramente como uma força espiritual, tal qual Zina.
Nunca foi falado que cultuamos Exú do Tempo como nkisi ou como Orixá.

Erick Wolff
Bom dia baba [Andrew Monteiro], por gentileza, para registro e estudos, seria possível nos informar se por acaso já ouviu dos seus mais velhos falarem sobre o Exu do vento?

Andrew Monteiro
Benção, Bàbá [Erick Wolff]. Exú do Vento somente no culto de Kimbanda. Exú do Tempo é o que cultuamos. Damos obrigação apenas no agosto: Léba, Zina e Exú do Tempo. Não os consideramos Orixás.

Andrew Monteiro
Eu acho que sobre as obrigações do Reino, você só consegueria informações com os filhos mais velhos. Eu não posso falar.
Só posso afirmar a existência e que não é Kitembo, não é nkisi e nem Orixá. É uma força de proteção da casa.

Erick Wolff

Baba [Andrew Monteiro], nos anos 80, eu aprendi e vivenciei o Exu do vento, porém, o Luiz meu pai não tinha e também não vi na casa do pai Cleon até 2000, na vdd até o tempo que fiquei na família nunca ouvi falar sobre Exu do tempo… inclusive cantavam "Exu apana apana"…// mas não assentavam…
Destaco que não estou dizendo que não exista, pois estão fazendo…. e possuem liberdade para continuarem a praticar a sua fé… e defenderemos o seu direito e liberdade…
 
Erick Wolff
[Andrew Monteiro] grato pela sua informação, é muito importante, e estimo muito a sua postura ética e honesta para com os estudos e registros… no contexto religioso bate com o que conheci, com uma diferença, não existia assentamento na dele na Família até 2000, depois disso não tive mais contato com o reino.
Por gentileza, quando informa que se trata de uma força de proteção, saberia explicar a sua visão para entendermos ?"


Link https://www.facebook.com/reel/29366463092954982 
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Insights até a data 18/09/2026 


 


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O VODUM DA CRIAÇÃO: LISÀ OU AGANMA

Transcrição da entrevista "Buscando a Possível Herança Vodun no Batuque", Revista Olorun, n. 17, abr. 2014, prof Charles da Silva.

Nesta transcrição selecionamos o tema Aganma, para que possam ter acesso ao Vodun

[...] 

[Página 113 — Imagem 1] Revista Olorun, n. 17, abr. 2014


LISÀ OU AGANMA

Bàbálòrìṣà Erick Óbokún
- No culto a Xapanã, da Nação batuque do R.S., encontraremos a divindade Gama, que por falta das devidas fundamentações, se tornou uma Òsùn do cemitério, seria o mesmo que dizer que existe um Òòṣàlá que veste preto ou faz o dano, impossível de conceituar tal divindade, simples mente por que foge totalmente da sua origem e fundamentos.

Hùngbono Charles - Lisà (Lissa) ou Aganma (Agama – "O camaleão") é uma divindade de origem Aja, ligado a criação. É o princípio masculino da criação, enquanto que Mawu é o princípio feminino. Lisà, "o branco", é uma divindade muito semelhante ao orixá Yorùbá Obátálá / Òòṣàlá, sendo que cosmogonicamente ambos tem a mesma função.

Bàbálòrìṣà Erick Óbokún- Sobre o culto de Gama, no Batuque do R.S. sabemos que esta divindade pode carregar as mesmas cores que Xapanã, Lilás e branco (1x1), e não teia [tem] nada haver com Òsùn e o seu culto, nem mesmo seria feminino.




[Página 114 — Imagem 2 e 3] Revista Olorun, n. 17, abr. 2014


Hùngbono Charles - Lisà é um deus masculino representado pelo Sol, enquanto que Mawu, a deusa-mãe, é representada pela Lua. Lisà ou Aganma também recebe o apelido de Alòkpe - "O da mão pequena" - uma alusão a pata do camaleão. Os mitos dos povos Aja contam que Lisà desceu a terra e se manifestou para eles como Aganma (o camaleão) desde então esse é seu maior símbolo dentre os Ajanu.

Lisà é o céu e Mawu é a terra; Ele representa a força cósmica masculina e Ela e feminina. Também Lisà é a divindade da paternidade, é o pai dos Voduns e dos homens. Conta-se que Lisà é muito temperamental e muito rígido, ele é quem ficou responsável por fazer valer as regras de Mawu, e sempre castiga quem as descumpre. Certa vez, Mawu vendo a impaciência de seu irmão e companheiro para com os homens decretou que Lisà deveria descer a Ayikúngban (a terra, mundo dos homens) e convivendo com os humanos deveria aprender com eles e conhecê-los melhor, e assim Lisà de tempos em tempos vinha a terra e muitas vezes se envolvia com as mulheres humanas e seus filhos eram dados como vodun.

Para os povos do Abomey, onde encontra-se o convento de Jèna, o principal templo dedicado a Mawu-Lisà, estas divindades são a origem [...]



[Página 115 — Imagem 4] Revista Olorun, n. 17, abr. 2014 


de tudo o que é vivo, são os deuses que existiam antes de tudo e de todos. Porém, para os povos das localidades de Dasa-Zumé e entre os Bariba, Mawu e Lisà são gêmeos nascidos de uma divindade mais antiga, chamada Nana Bulukú.

A cor emblemática de Lisà é o branco, e seus Vòdún sempre devem usar a cor branca e são chamados lisàsì ou aganmaví (filhos do camaleão). Diferente de Mawu que se relaciona igualmente a todas as famílias de Vòdún, Lisà é considerado um Ji-Vòdún (Vòdún do céu). Sua saudação é Daá mi Lisà ató nyi gbó Daágbó!


Bibliografia

VERARDI, Jorge, Axés dos Orixás no rio Grande do Sul. Editora Palloti, 1990

SILVA, Charles, MÄWÜ A DEUSA DA CRIAÇÃO NA TRADIÇÃO JEJI, p. 16, 16º Edição Revista Olórun, SET 2013.

SILVA, Charles, CASA JEJE DE AZANSÚ-SAKPATÁ, R. S., p. 25 à 27, 15º Edição Revista Olórun, SET 2013. 

[...]






sábado, 12 de setembro de 2026

QUANDO OS COSTUMES ANTIGOS, NA VISÃO MODERNA, VIRARAM BOBAGEM E IGNORÂNCIA...

POR MOISES MARQUES

(Pai Moisés de Oxalá)

11/09/2026

 

 


Sou do tempo em que o Orixá, após a obrigação, depois que o okutá recebia o seu quatro pé, era deixado descansar. Só depois era colocado na vasilha e, então, levado para a prateleira.
 
Sou do tempo em que, quando o Orixá iria para a casa de um filho, ele era retirado da prateleira e deixado descansar, para só depois ser levado para a casa desse filho.
 
Sou do tempo em que tínhamos cuidado com os filhos de Bará que estavam em obrigação. Perto da cabeça deles não poderia haver banana, e eles também não comiam dessa fruta, pois ela "inquizilava" Bará.
 
Sou do tempo em que, para passar em frente a um Orixá em transe, nos curvávamos em sinal de respeito. Também não passávamos diante dele carregando um copo de água, uma faca ou qualquer objeto pontiagudo sem que estivesse devidamente coberto por um pano.
 
Sou do tempo em que não podíamos gritar dentro do quarto de santo quando estávamos lidando com o okutá. Não se gritava o nome da pessoa que estava ocupada ou em transe, pois se acreditava que o Orixá poderia se assustar e fugir.
 
Se derrubassem o okutá no chão, ou se batessem com os assentamentos, dizia-se que o Orixá poderia ir embora.
 
Sou do tempo em que, se o filho estivesse em transe e, na hora de o Orixá ir embora, o axêro chegasse chorando, aquilo era entendido como um sinal de que o Orixá estava magoado, descontente, ou que alguma coisa estava errada. Era necessário um desagravo, uma misericórdia, uma forma de apaziguar aquilo que havia acontecido.
 
Sou do tempo em que, se alguém falasse da ocupação do santo, dependendo da situação, o Orixá poderia chegar imediatamente para tirar aquela descoberta da cabeça do filho. Em outras situações, dizia-se que o santo poderia nunca mais voltar. E então seria necessária uma misericórdia para acalmar aquela situação.
 
Sou do tempo em que nossas crianças recém-nascidas eram apresentadas dentro de uma gamela aos Orixás, no quarto de santo.
 
Sou do tempo da Quinzena Seca: toques realizados de quinze em quinze dias para os Orixás, sem corte, sem imolação, apenas com frutas, balas, flores, um atã e a força da fé.
 
Sou do tempo em que, não havendo balança, num toque de dois pés, quando os Orixás não estavam se apresentando, o pai de santo entrava com uma bacia de louça branca cheia de água, coberta por uma toalha. Ao destampá-la, todos os Orixás que ele precisava se manifestavam.
 
Se precisavam de um Lodê no mundo, por algum motivo dentro do Batuque, um alguidar de pipoca era levado para o cruzeiro. Quando entrávamos novamente no terreiro, o Lodê já estava no salão.
 
E agora?
 
Agora, dizem que tudo isso é bobagem dos antigos.
Agora, dizem que era ignorância dos antigos.
Agora, dizem que essas coisas são antiquadas, ultrapassadas, que o mundo evoluiu e que o sagrado também evoluiu.
Pois é...
 
Pode ser uma imagem de tofu 
 
FONTE: Facebook
 
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Transcrição e adaptação: Luiz L. Marins
12/09/2026 
 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ÁLCOOL É TABU ABSOLUTO DE OGIYAN?

Coletamos esta postagem na página de Moises Lino e Silva, no Facebook, publicado em 03/09/2026.




"ÁLCOOL É TABU ABSOLUTO DE OGIYAN?
Por Moises Lino e Silva

Amanhã, sexta-feira (04/09/26), começa oficialmente o Festival Anual de Ogiyan em Ejigbo. 

Contudo, as preparações já estão literalmente a todo vapor!

Hoje, chegando ao palácio real, encontrei diversas mulheres — das três famílias reais — reunidas e preparando uma bebida fermentada chamada otioka, produzida pela fermentação do sorgo.

Pessoalmente, nunca gostei de bebida alcoólica. No Brasil, sigo uma tradição em que a única bebida com algum teor alcoólico oferecida para Ogiyan é o aruwa (ou aluwa).

Em Ejigbo, o grande tabu alcoólico para Ogiyan refere-se ao emu (vinho de palma). O otioka é uma bebida com teor alcoólico que faz parte da ritualística do Festival de Orisa Ogiyan.

Orisa Ogiyan aceita algum tipo de álcool na sua tradição? Deixem comentários.

EPA AJAGUNAN! OLOROGUN EPA!
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PESQUISA E FOTOS: Moisés Lino e Silva (Agbasaga Ogiyan)" 

Imagens 










quarta-feira, 9 de setembro de 2026

OGIYAN E O DENDÊ NA PRÁTICA

Coletamos esta postagem publicada na pagina Agbasaga Ogiyan, no Facebook, postado em 09/09/2026. 


"OGIYAN E O DENDÊ NA PRÁTICA

Por Agbasaga Ogiyan


No terceiro dia do Festival de Ogiyan em Ejigbo (Osun State), tivemos a oportunidade de testemunhar o uso do dendê (epo pupa) na prática ritualística de Orisa Ogiyan.

Os sacerdotes trazem duas cabaças — uma aberta e outra fechada —, 4 obis (16 bandas) e uma panela branca repleta de dendê. Com esses elementos, rezam e realizam uma oferenda pública para Ogiyan, logo no início do dia.

Eeeeeepa Oosa! Epa Ajagunan!

PS: Informações e explicações mais detalhadas sobre o uso do dendê no culto de Orisa Ogiyan em Ejigbo estão em posts mais antigos de nossa página do Facebook.
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FOTOS E PESQUISA: Moisés Lino e Silva (Agbasaga Ogiyan)"
 
Imagens - 






  
 

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