segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

NÃO, AO IFÁCENTRISMO!

Este texto foi postado no Blog Meu Coração Africano, por Iya Ifasola Egbekemi, em 09/11/2023, acessado em 18/12/2023.

Para preservação e memórias das religiões de matrizes africanas, este texto faz um panorama da Matriz para a diáspora.


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"Há alguns anos eu conheci Ifá e me encantei com a sua filosofia, com a sua proposta de zelar o caráter e trabalhar individualmente o destino. Era um sonho, principalmente por ter vivido tantos problemas, apanhado da vida, levado rasteira poder me agarrar à esperança de que alguém poderia mudar a minha história.

Levantei uma grande bandeira em nome do caminho de Ifá. Eu me iniciei, iniciei minhas filhas e trouxe para este caminho centenas de brasileiros, que motivados pelos meus textos foram buscar Ifá. Recebi tantas mensagens de agradecimento que me emocionaram, que perdi as contas, mas cada uma delas teve o seu devido valor.

Antes de continuar quero apenas deixar aqui esclarecido que me refiro aqui ao culto de Ifá e não da Religião Tradicional Yorúbà. Há famílias em território Yorúbà que praticam a religião dos Orisa, mas que nunca se iniciaram em Ifá. De fato não são muitas, mas elas existem.

De repente, como uma experiência que aguça todos os meus sentidos, visão, olfato, paladar, audição e tato, fui conhecendo todas as nuances desse meio. Conheci a sala de estar, os quartos, a cozinha, o quintal e de repente eu entro no porão. Me lembro inclusive quando conversei rapidamente com a Iyalawo, Chief FAMA, Aina Adewale Somadhi, sobre esse porão, e ela me disse: "Não tente lutar contra isso".

Quando estive na Nigéria em 2019, eu era uma mulher branca sim, mas antes de tudo devota, apaixonada, nascida dentro do culto afrobrasileiro, que tinha pego todo o seu fundo de garantia e viajado em busca da minha saúde, sem olhar como seria financeiramente nos meses seguintes. Fui por amor e por dor. Era o sonho de uma vida que se realizava. Chegando lá, meus olhos percorriam os detalhes culturais, o comportamento interpessoal entre eles, e foi assim que captei situações que jamais publiquei nas redes sociais, por pura tristeza. Entre elas o ar de superioridade que os Babalawo possuíam diante dos outros sacerdotes, como se de fato eles estivessem no topo da cadeia. Eu convivi dentro de casas de Orisa, em Festivais públicos para os Orisa no meio de uma multidão e vi de muito perto o olhar de pouca valia com os sacerdotes de outros Orisa, mas principalmente com as mulheres. Mulheres essas, Iyalorisa de Osun, Obaluaiye e Obatala que me deram colo e cuidaram de mim quando tive um mal estar, quando ainda estava lá. Senhoras anciãs que dançam e cantam com tanta alegria para os Orisa, que se olham com o mais profundo olhar de conformidade e pacto entre elas. 
 
O Ifá é patriarcal, todas as decisões e poder estão centralizadas apenas nas mãos dos homens. O culto a Ifá contém uma forte influência islâmica, onde uma cabra tem mais valor do que as mulheres. Também tem forte impacto cristão, onde as mulheres devem obedecer os homens, e quer saber? Isso não vai mudar NUNCA, e de verdade, cansei de bancar Xena "a Guerreira".

Desde a minha viagem até aqui, descobri sobre o porão, sobre o seu mofo, mal cheiro e sobre o que está escondido lá, tantas coisas, que se eu abrisse minha boca, talvez não houvesse magia o suficiente para que eu permanecesse em segurança. 
 
Não sei você, mas eu acho Jesus Cristo um cara maneiríssimo, tenho um enorme carinho por ele, mesmo que ele seja um personagem criado para a história do capitalismo e do poder. Meu problema nunca foi com Jesus, até confesso que na minha infância, aos 3 anos - sim eu me lembro - , eu tinha sonhos com ele me visitando e brincando comigo no jardim de casa fazendo comidinha com folhas, terra e água. 
 
Eu amo Ifá, sou grata a quem me tornei depois do meu Itefá. De como os caminhos de humilhação sumiram da minha estrada. 
 
- Ahhhh Ifá como eu amo você! Como sou grata por tudo o que fez e faz na vida da minha família, mas a questão é que estou tendo um probleminha com aqueles que falam em seu nome, muito parecido com aqueles que falam em nome de Jesus.

Sabe aquela frase: Jesus é o caminho a verdade e a vida? Pois é. Eu não acredito em um Ifá"centrismo" - nem sei se essa palavra já existe, mas sei que tudo o que converso com a maioria dos Babalawo a resposta é: 
 
"Foi Orunmilá quem permitiu que tal coisa acontecesse." "O único que possui um oráculo verdadeiro é Ifá, o restante só existe porque Ifá existiu antes"

Sem contar as histórias sem pé nem cabeça que fazem uma imposição da desvalorização da mulher nos ritos, nos mitos e em todo restante. A história de Iya Odù para mim é a mais impressionante. 
 
Sei que com este texto, estou soltando a mão de todo círculo de Babalawos, que eu já defendi e apoiei no passado, mas a partir deste momento eu afirmo publicamente, o que sempre já existiu dentro da minha casa: Ifá não é o centro de tudo, Ifá não é o mais importante, o culto aos Orisa podem existir sem o Ifá. Mesmo que eu continue trazendo Sacerdotes da Nigéria para fazer o Itefá, a iniciação em Ifá, não tem maior importância do que as outras. 
 
O culto aos Orisa está muito vivo. 
 
E mais uma vez trago minha frase preferida: "Pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença" de Alejandro Jodorowsky .

 

Com amor aos Orisa. 
Iya Ifasola Egbekemi"


Imagens comprobatórias 





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Fonte:



OBALUAYE E A POLÊMICA DAS PALHAS

Coletamos esta postagem na página que se apresenta como " Filho do Vento". Tentamos contato mas não foi possível a identificação do autor.

Por tratar de conteúdo relevante e importante, apesar de um autor anônimo, optamos por registrar o conteúdo, com os devidos créditos.

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"OBALUAYE E A POLÊMICA DAS PALHAS



Eu já expliquei algumas vezes de modo superficial, mas dessa vez vou falar mais detalhadamente para vocês sobre essa grande polêmica sobre as palhas de Obaluaye.

O orixa Obaluaye é uma divindade Yoruba, e em sua origem ele JAMAIS SE VESTIU COM PALHAS.

Mas nós sabemos que aqui no Brasil ele se veste sim, e os motivos desse grande contraste entre África e Brasil é um só: O SINCRETISMO 

Quando falamos de sincretismo religioso as pessoas logo pensam em orixas sendo cultuados sob o nome e aparência de Santos Católicos, mas não, o sincretismo vai muito além disso.

O Candomblé é uma religião sincretica dentro da cultura africana, ou seja, o candomble sincretiza religiões africanas dentro de outras religiões africanas.

Um grande exemplo é Ajunsun, que é um Vodun mas que dentro do candomble foi sincretizado como sendo uma "qualidade" de Obaluaye.

A roupa de palha que Obaluaye usa no Brasil se chama AZÊ, mas originalmente essa roupa não era dele e sim de divindades Fon, ou seja Voduns como Sakpatá, Azawani (Asojano) e Jeholu.

Então nisso esta claro que a aparência do Obaluaye brasileiro na verdade de Obaluaye não tem nada e sim seria emprestada de outras divindades.

Mudar a aparência de Obaluaye não foi algo ruim, isso foi até positivo se vendo que o candomble conseguiu agregar várias divindades dentro de um mesmo culto.

O ponto negativo está nas lendas falsas que foram inventadas a partir disso. Por exemplo a lenda onde Oya assopra as palhas de Obaluaye, se sabemos que ele não usa palhas na África.... Onde essa lenda ocorreu? De onde ela saiu? Como Oya assoprou palhas se as palhas na época não eram atribuidas a Obaluaye?

Outra lenda falsa é a de Obaluaye ter que usar palhas por ser um homem horrendo cheio de cicatrizes de varíola, mas na africa se conta uma história bem diferente, lá Obaluaye tem relação com a varíola, mas nunca adoeceu dela e nem tem cicatrizes ou marcas no corpo, alias a aparência dele é dita como bem agradável e não haveria razão para ser escondida.

Outro sinal do sincretismo é a festa de Obaluaye realizada dentro do candomble chamada "Olubaje", esta festa não existe na africa e não se conhece nenhuma lenda referente a ela lá. O Olubaje é na verdade foi uma adaptação de uma cerimônia Bantu chamada KUKUANA, que é a festa das Nkisi da terra como Nsumbu, Kafunge e outras.

O culto de Obaluaye dentro do Candomble tem bases que não são Yorubas, isso causa toda essa enorme confusão.

Na África Obaluaye não é filho de Nanã, a mãe dele se chama na verdade Olú ou Opará (não Oxum).

Na África Xango é o melhor amigo de Obaluaye, mas no Brasil sabe-se-lá porque se diz que são inimigos.

Na África Obaluaye não é irmão de Oxumare.

Na África Obaluaye não é filho de Oxalá.

Na África Obaluaye não tem nenhuma restrição ao metal.

Na África Obaluaye se veste de Vermelho, preto e roxo.

Existem muitas diferenças entre africa e o Brasil. As qualidades de Obaluaye no Brasil em sua maioria não sao ele e sim outras divindades.

Mas devemos lembrar que também existe culto de Orixa na América central, principalmente em Cuba, e lá Obaluaye (chamado de Babalu Aye) também nao usa palhas. Inclusive Cuba também trata Obaluaye de uma maneira diferente de outros lugares, dando a ele status de filho de Oduduwa.

Ficaram com dúvidas?

Busquem ler mais sobre como é o culto e a cultura dos Orixas na África, tenho certeza que vão ver muitas informações contrastantes e muito interessantes.

Esse meu post não tem intenção de criticar e sim despertar a curiosidade em todos os que gostam de cultura afro.

Lembrando que não existe fé errada, toda forma de fé é boa."

 

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Registro de documentação:

Para preservação dos direitos do autor, entramos em contato com administração da página, porem, não nos forneceram o nome, desta forma, os créditos ficam à saber.

Postado em 07/07/22, acessado em 18/12/2023.




Original em: 
 

domingo, 17 de dezembro de 2023

TUDO ERA ORISA PARAPO !

 

BABA SANGODARE AJALA

Por Paula Cristina Gomes

17/12/2023



Existem pessoas que não esquecemos na nossa vida !
Baba Sangodare Ajala é uma dessas pessoas que não posso esquecer.
1988, o ano quando cheguei a Nígeria pela primeira vez Baba Sangodare Ajala me acolheu sem me conhecer e a jornada começou….
Fazem 35 anos de percurso na terra Yorùbá e o Baba sempre presente como um pai.
Pessoa boa, amiga, humilde, companheiro, descomplicado, sempre bem disposto, respeitador, sempre presente para resolver qualquer situação.
Passamos horas e horas a rir e a contar histórias sentados debaixo de uma árvore em Ibokunroad.
Viajamos muito…. Todos os festivais de ÒRÌṢÀ íamos juntos, por vezes passamos 1 dia ou mais noutras cidades.
Muito do que sei hoje, vivi e percorri na terra Yorùbá devo a ele.
Foi ele que me trouxe a primeira vez para Oyo para o festival de Sango. Lembro me como se fosse hoje.

Fazem exatamente 32 anos.

Èdè, Ilobu, erin, Illorin, Ibadan, Oyo, Lagos, Ejigbo, Ekiri, etc etc etc etc foi ele que me levou para os festivais de ÒRÌṢÀ.
Tantos sacerdotes já partiram…
O festival de Sango era tão pequeno, mas os sacerdotes continuavam na sua luta de manter a tradição….
Quando cheguei pela 1 vez, o Estado de Osun não existia , tudo era Oyo.
Assisti ao dia em que Osogbo virou capital do novo estado de Osun.
Tudo recordações que ficam para sempre…
O festival de Osun também era tão pequeno em Osogbo, a floresta chegava perto do mercado. Osogbo era uma cidade pequena e acolhedora.
Tantas recordações….Tanta coisa mudou… ÒRÌṢÀ tanta simplicidade e humildade.

Tudo era ÒRÌṢÀ PARAPO.

Me deram o nome de Omo Osun, disseram que eu era de Osun e Egbé Orun.
Recebi Osun ha 30 anos atrás. Tudo tão diferente.
Os meus olhos e coração viram tanta coisa e sentiram tanta coisa.
Baba Sangore Ajala sempre me lembro do seu sorriso, humildade e boa disposição. Das nossas risadas e viagens .
Gostava tanto que estive entre nós para podermos celebrar está conquista da UNESCO do Festival de Sango.
Você também fez parte desta conquista.
Gratidão
🙏
Eternamente grata.

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VIDEO DE BABA SANGODARE AJALA

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Publicado por Paula Cristina Gomes, em FACEBOOK:

Transcrição e adaptação: Luiz L. Marins

Registro documental:





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