Sacerdote de orixá desde 1989, na tradição do Batuque do Rio Grande do Sul.
22/06/2021
Imagem 1: Idoxu; preparado que fixo sobre a cabeça do iniciado do Candomblé
Este ensaio faz algumas reflexões sobre o Idoxu, a necessidade de fazer ou não, a quem o Idoxu pertence, e quem pode fazer.
O Idoxu é um preparado que contém segredos do orixá ao qual está sendo feita a iniciação.
O Idoxu tradicional na matriz, deve ser feito por sacerdotes deste mesmo orixá que haverá a iniciação, ou seja, indivíduos de outros orixás não colocam a mão nem participam na confecção do Idoxu de um orixá que não sejam iniciados.
Nem todos os orixás possuem Idoxu, Ibeji é um deles:
[...]
não há Idosu para Orisa Ibeji. (Salomom Omojie)
[...]
Aikulola informa que nem todos que se iniciam para Obatala, necessitam de fazer Idoxu de Obatala, mas, apenas os estrangeiros.
[....]
somente alguns sacerdotes de alto ra nao tem que fazer porque pertenecem a certas casas onde tem o ase do orisa no seu corpo por heranca. Para estas pessoas se faz uma cerimonia de instalação de xefe com titulo para faze-los o sacerdotes principais, mas para o resto do mundo, precisam idosu.
[...] (Chief Aikulola Fawehinmi)
Dra. Paula Gomes, 2023, explica que nem todas as divindades necessitam de Idoxu:
"Nem todas as divindades têm o idoxú em suas feituras, caso de Ogun, por exemplo" (informação pessoal)
No Brasil, por norma, nas casas que fazem a feitura de um iniciado com idoxu, o ato é realizado por um sacerdote que não é do mesmo orixá que está sendo feito. Assim, podemos dizer que Idoxu do Brasil pertence à casa a qual o iniciado está sendo feito, diferente de como é na religião tradicional Ioruba, onde o sacerdote pertence ao orixá que irá iniciar e recebeu o idoxu do próprio orixá.
Quer nos parecer, entretanto, que a forma brasileira de um sacerdote de um orixá A fazer um idoxú de um orixá B, talvez nem sempre tenha sido assim, o que nos permite imaginar que no início dos cultos afro-brasileiros, cada orixá fosse feito apenas pelos sacerdotes do orixá que estava sendo feito. Se assim for, ficar por pesquisar porque e quando isso mudou.
Curiosamente, colhemos no RS, da informante Adriana, de que o individuo deve procurar o sacerdote do seu orixá, para ser feito:
[...]
Uma pessoa de Oxalá deveria procurar um sacerdote de Oxalá, por que uma pessoa de Oyá não poderia mexer na cabeça de uma pessoa de Oxalá, e vice-versa. (Informação de Heloa, apudi Adriana)
[...]
_____________________________________
Revisado e aumentado em 17/04/2024
A raspagem durante a iniciação, alguns segmentos afro-brasileiros praticam e outros não praticam e nem precisam.
Porém, a necessidade de raspar, é para acomodar sobre a cabeça do iniciado o "Adoxu".
Beniste explica a origem do adoxu do candomblé:
[...] A utilização do osú como marca que distingue o iniciado substitui todas as outras formas utilizadas em terras yorubá, como o osú, que representado por um tufo de cabelos deixado no alto da cabeça raspada, nos rituais de Sàngó [...]
Imagem 2
Aqui Beniste informa que o Adoxu é um fragmento da casa:
O sacerdote Nathan Lugo, fala que em Ile-Ife Obatala não tem Idoxu:
Imagem 4
Revisado e aumentado em 04/08/2024 OGUN NÃO RASPA E NÃO TEM IDOSU
CONSIDERAÇÕES:
O Candomblé convencionou raspar e adoxar, mesmo aqueles orixás que não necessitam de raspagem.
O adoxu é um ipin da casa e não do orixá.
IMAGENS
Fonte imagem 1 - Vanessa Almeida
Fonte imagem 2 - Òrun Àiyé, o encontro de dois mundos (J. Beniste) 1997, p. 325
Fonte imagem 3 - Águas de Oxalá (J. Beniste) 2001, p. 177
Adriana Torres, pertence ao Batuque, iniciada em 2005, por Luciano de Oya, filho de Leco de Oya, em Caxias do Sul. Filha carnal de Heloa, faleceu em 2007, aos 55 anos, praticava Umbanda, não informado a nação do Batuque a qual pertencia, morava em Caxias do Sul, Bairro Esplanada.
Referencias
ORISA IBEJI EM ILEBA / ILARO, ENTREVISTAS REALIZADAS COM ARUGBA IBEJI / OLOYE IBEJI. acessado em 22/06/2021 às 16:26 - https://iledeobokum.blogspot.com/2020/01/orisa-ibeji-em-ileba-ilaro-entrevistas.html
Chief Aikulola Fawehinmi e o Òkúta no Ilé-Orí, acessado em 22/06/2021 às 18:40 - https://iledeobokum.blogspot.com/2011/06/erick-wolff8-sao-paulo-07062011-outro.html
Obàtálá molda a humanidade com uma argila perfeita.
Obàtálá, molda pessoas com bom caráter.
Obàtálá dorme e acorda, mantendo seu bom caráter. "
"A humildade deve ser uma companhia constante ao longo do seu caminho. Caso você prefira afirmar-se como um ser dotado de superioridade, com relação aos outros, pense melhor! Você é mesmo o mais especial ser no mundo? Ser superior a alguém é uma boa
defesa? Reflita sobre isso! "
"Não é durante as grandes ou pequenas dificuldades que você deve se aproximar de Òrìşà, apenas porque precisa deles. É importante lembrar e cultuar Òrìşà, quando você é abençoado. Procure lembrar como você chegou à sua posição. Òrìşà são os únicos em quem você deveria confiar desde o início e permanecer firme na confiança"
"A paz e a tranquilidade de Obàtálá não vêm através da riqueza e da fama. Isto vem em muitas e outras características, como: humildade, respeito e bondade"
"Às vezes você presta muita atenção no que outras pessoas fazem e esquece de pensar em você.
Você esquece seu próprio equilíbrio, preste mais atenção nas suas decisões e atividades, fazendo isso, você obtém paz com Obatálá na sua vida!"
"Não permita que as ações dos outros diminuam suas boas maneiras. Não deixe que os outros controlem suas reações. Não deixe seus sentimentos tirarem o melhor de você. Mantenha seu foco e sua paciência!"
"Tenha cuidado com os precedentes que você definiu.
Aqueles que vêm depois de você podem usá-lo de maneira mais cruel.
Nem tudo importa tanto e demanda imensa raiva. "
"Um dos sinais que você pode cultivar é sua conexão especial, com o seu Ori. Segure bem esta conexão, acreditando que críticas e
louvores alheios, não devem importam nada para você! Cultive bem isso e permaneça em paz! O alicerce básico para a paz na sociedade é a tranquilidade e a harmonia, dentro de você. Depende de você em relação ao seu ORI e, nunca das decisões dos outros. "
Foto : Templo de Obatala Ile ife - créditos Oba Ojele Obatala
Sacerdote de orixá desde 1989, na tradição do Batuque do Rio Grande do Sul.
19/06/2021
Respeitando o direito e a liberdade de culto de cada um, este ensaio tem por finalidade esclarecer que Xangô não teme Egun, e a similaridade dos rituais na tradição Batuque do Rio Grande do Sul.
No portão de entrada do palácio do Alaafin em Oyo, Nigéria, há uma imagem imagem de Xangô e Egun lado-a-lado.
Contatamos o povo de Xangô no palácio do Alaafin e perguntamos se Xangô teme ou já temeu Egun.
A Dra. Paula Gomes, Assessora Cultural do Alaafin Oyo, nos informou que Xangô não teme Egun, e que não existe este conceito no culto de Xangô na religião tradicional Ioruba, completando com a seguinte fala:
"..o povo de sango não pode carregar Egungun devido ao idosu, não tem nada haver com medo.."
Informamos à Paula Gomes que, na tradição do Batuque, Xangô não teve ou tem medo de Egun.
Em resposta a Dra. Paula informou que na tradição do povo de Xangô em Oyo ..."é igual ao Batuque..".
Assim sendo, consideramos finalmente que alguns batuqueiros desinformados estão veiculando na internet a informação equivocada que Xangô temeria Eegun ... Isto não é verdade na religião tradicional Ioruba.
É muito comum no candomblé o uso de palavras em Yorùbá. A origem dessa religião se dá graças aos Yorùbá, povo oriundo da Nigéria. Não podemos dizer que o Candomblé, atualmente, seja 100% Yorùbá, pois sempre há palavras e expressões de diversas outras nações, como os Bantus e Fon. No entanto, o idioma do povo nigeriano quase que prevalece em cima dos outros, isso quando falamos de candomblé Kétu, Ẹ̀fọ̀n e outros, excluindo o candomblé de Angola e candomblé Jèjè.
As palavras e expressões em yorùbá estão nos utensílios de cozinha, nomes das roupas, nos toques dos atabaques e muitas outras coisas. Temos então algumas palavras que ouvimos comumente: orin, àdúrà e oríkì. Orin é claramente a mais distinta, pois significa canção, cantigas. Porém, ainda há confusão entre àdúrà e oríkì. Vamos compreender.
O que significa Àdúrà?
Àdúrà significa oração e tem sua origem em um dos idiomas que influencia o Yorùbá: o hauçá/ haussá. Não podemos confundir o verbo orar, que é gbàdúrà.
Os verbos em Yorùbá, todos eles, começam sempre com vogal e, neste caso, gbàdúrà inicia-se com gb.
Através de uma àdúrà, você pede, suplica, peticiona ou até mesmo agradece algo. A função de uma àdúrà é basicamente essa: pedir, suplicar. É uma comunicação de peticionar uma bênção, obter uma graça, chamar os olhos de determinada energia, òrìṣà, entidade, para sua direção.
Alguns estudiosos dizem que há uma grande diferença entre rezar e orar, mas não iremos complicar essa questão e vamos dizer que são sinônimos.
Diferente do que muitos pensam, uma àdúrà não precisa ser estática, não precisa ser somente memorizada, pois é perfeitamente factível que uma pessoa, de posse do conhecimento do idioma Yorùbá, crie suas próprias àdúrà, pois ela estará personalizando seu pedido. Cada dor é unica e não memorizada. Salvo as àdúrà que ativam energias específicas, como odù e etc.
Então, àdúrà visa ao peticionar, ao pedir por algo, por alguma bênção.
Mo gbàdúrà sí òrìṣà gbogbo bùsín fún wa lóní = Eu rezo para que todos os òrìṣà nos abençoem hoje!
O que significa Oríkì?
Essa palavra é amplamente, e de forma muito errada, associada ao ato de rezar. Muito cuidado! Oríkì não é uma reza! Também é muito divulgada como uma saudação. Cuidado, oríkì não é uma saudação! Iremos entender o porquê disso, mas de antemão, saiba que quando falamos de saudações, estamos falando de um gênero específico: ìbà. Essa sim trata-se de saudação. Ìbà Èṣù = saudação para Èṣù; ìbà Orí = saudação para Orí… etc.
Oríkì é uma espécie de louvor (Por favor, não liguem ao louvor evangélico. Continuem lendo!). A etimologia da palavra se dá: Orí = aquilo que está no alto, aquilo que é importante, aquilo que tem destaque, evidência. Também, atentem a isso, também significa cabeça. As palavras em Yorùbá costuma comportar muitas acepções diferentes. Isso é natural. Kì é um verbo e significa enaltecer, proclamar coisas boas acerca de algo, declamar qualidades, elogiar com fervor. Notem “kì” e não “kí“. Kí, com acento alto, é o verbo saudar e a palavra é oríkì, como acento baixo.
Oríkì significa o enaltecimento de algo importante, proclamar qualidades de algo que está em evidência, louvar com fervor algo superior.
O oríkì é conhecido também como gênero literário yorùbá, pois através de sua prática podemos evidenciar qualidades, características e feitos de determinada pessoa. Ou seja contar uma história.
Oríkì não é estritamente religioso. Tem oríkì para animais, cidades, países, crianças, datas festivas. Não é para uso exclusivo do òrìṣà. Mas seu uso nesse tem uma serventia bem específica: ficar bem aos olhos destes, mostrar culto e afeição aos mesmos. Não são minhas as palavras, mas de um nigeriano: “oríkì serve para você bajular as energias!” Ou seja, agradar pra conseguir algum favor ou algo em troca (de forma discreta ou não).
O tema não se resume a isso. Temos um curso somente sobre Oríkì e Àdúrà, onde você irá aprender muito mais do que é dito aqui. Inclusive, você aprender neste curso como criar seus próprios àwon oríkì e àdúra!!
O que significa Orin?
Orin, como dito no início, nada mais é do que cantiga, música cantada. Não só as de òrìsà! O Hino Nacional é um orin, uma música cantada por Luan Santana é um orin. Agora, orin fún òrìṣà e orin ti òrìṣà, a figura muda, estamos diante das cantigas cantadas nas casas de candomblé em louvor ao òrìsà.
Uma coisa bem interessante: o oríkì pode ser cantado, pois estamos falando de enaltecimento de algo e por meio de uma cantiga, podemos enaltecer algo. Por isso que eles podem andar juntos.
Qual a diferença entre oríkì e àdúra?
Podemos chegar a conclusão que a diferença está na intenção, na função que cada um executa. Oríkì exalta, enaltece, louva. A àdúrà pede, suplica, busca a aquisição de algo.
O ideal seria a ordem: primeiro fazer um oríkì (chamar a atenção da energia), depois a àdúrà (buscando pedir algo) e, por fim, mais oríkì (enaltecendo aquela energia que irá lhe ajudar). Mas isso é apenas uma sugestão lógica e não uma obrigação a ser seguida.
Sacerdote de orixá desde 1989, na tradição do Batuque do Rio Grande do Sul.
14/06/2021
Esta compilação de vídeos da manifestação do orixá Oya, é para referenciar o comportamento desta divindade na religião tradicional Ioruba, que chega a ser muito semelhante à manifestação, forma que as divindades dançam e se comunicam com todos durante os rituais e festas que ocorrem no Batuque do R.S.
Elegun Oya dançando em Oyo em festival privado em sua comunidade.