Publicado orginalmente em 05/09/2020
Os mortos sofreram ação da morte, mas isto não os converte em algo sujo ou repugnante... Os ancestrais são e sempre foram adorados lado a lado de suas divindades... Com respeito, com honra...
Publicado orginalmente em 05/09/2020
Os mortos sofreram ação da morte, mas isto não os converte em algo sujo ou repugnante... Os ancestrais são e sempre foram adorados lado a lado de suas divindades... Com respeito, com honra...
Márcio
Brito Neto
21/09/2020
Quero compartilhar com vocês, principalmente meus irmãos do candomblé e da umbanda uma pequena resenha (grande para Facebook), sobre o complexo tema "Nkisi é ou não é Orixá?" Fica aí uma longa reflexão maturada após muita pesquisa e noites de pensamentos. Que resultou no projeto de longa-metragem documental "Munzenza: O brado do tempo". Aproveito pra agradecer meu pai Tata Sajemi Ia Lemba pela paciência e tantas trocas.
Muitos
adeptos do candomblé têm imensa dificuldade em concordar que Nkisi NÃO é Orixá.
Do
ponto de vista teológico é impossível afirmar que Nkisi e Orixá são as mesmas
“divindades”, vamos usar o objeto da Teologia, a relação do humano com “Deus”.
O
elemento criador do universo e dos humanos para os bantu é Nzambi Mpungu, ou
Kalunga (a depender da região e da etnia sofre variações no nome, mas a crença
é similar); já para os nagôs é Olodumaré (ou Olorun). Precipitadamente, alguns
se apressam para dizer que Nzambi é análogo a Olodumaré, eis o primeiro
equívoco sincrético inter-religioso.
Quem
ou o que é Nzambi Mpungu?
Nzambi
Mpungu é considerado a união das energias do mundo. A força geradora de tudo
que existe e que move todos os seres viventes.
Nzambi
habita cada elemento da Natureza e por ela também é formado. Não há nada no
mundo que não tenha a presença de Nzambi Mpungu como energia que move e que é
animada por ele.
Nzambi,
antes da definição do colonizador europeu, que o assimilou ao Deus cristão e o
descaracterizou, não significa “Deus poderoso”, “supremo”, mas “ser vivente”.
Ou seja, tudo que vive contém Nzambi e Nzambi contém tudo que vive.
Nzambi
não foi o criador do universo, mas a sua força geradora, através dele as forças
naturais se autocriaram, como no Big-Bang. Não há nesta figura nenhuma
aproximação com o humano, com seus sentimentos e personalidades.
Nzambi
está dentro de nós, não fora de nós. Isso faz com que se aceite a Natureza
também como divindade, pois se ela é Nzambi, ela também é “Deus”, logo
teologicamente os bantu são henoteístas.
Esta
figura nagô é mais assimilada ao “Deus” cristão, todavia é preciso cautela
antes de dizer que é a mesma “coisa”, pois é impossível conceber Olôdumarepela
ótica cristã e ocidental.
Olôdumare criou o mundo e se afastou da criação se recolhendo no Orun, onde habitam os
mortos notáveis e as divindades, seria equivalente (mas diferente) do céu
cristão.
Logo,
os nagôs são teologicamente politeístas, apesar da figura de um “Deus supremo”,
acreditam que há outros deuses capazes de intermediar a relação dos humanos
vivos e/ou mortos com Olôdumare, inacessível aos humanos.
Se
Nzambi está entre nós, então não existem dois mundos para os bantu?
A
resposta é NÃO.
Existe
um único espaço coabitado por seres materializados (vivos) que trazem em si a
energia vital de Nzambi, mas também os “mortos” habitam esse mesmo espaço, o
que há é uma divisão energética, imaginária entre esses mundos, porém não há
céu e terra, não há um espaço onde habita Deus e as divindades destacadas dos
humanos.
Pois
bem, uma vez que o ser humano ao “morrer” vira antepassado e a depender da
circunstância torna-se ancestral divinizado, não estaria esta figura muito
próxima aos Orixás nagôs? ... A reposta é sim.
Mas
estas figuras “mortas” que se tornam ancestrais são os Jinkisi (plural de
Nkisi)? A resposta é NÃO!!!
Pois o Nkisi seria a própria Natureza, que liga todos os elementos do mundo a energia condensada e mobilizadora chamada Nzambi.
Nkisi é anterior aos ancestrais, pois é a energia vital de tudo que existe e coabita.
Nkisi não é
diferente de Nzambi, mas é muito diferente de Orixá.
Fato
é que os primeiros nagôs a desembarcarem no Brasil datam do século XVIII, ou
seja dois séculos de diferença, ou no mínimo 3 gerações. Os bantu tiveram até
bisnetos antes da chegada nagô, como pode o culto às divindades africanas no
Brasil ter surgido misturada?
Se
houve mistura foi dos bantu com os indígenas, talvez a primeira grande
característica ritualística que separa os cultos bantu dos demais cultos do
candomblé. Pois o angola-congo nasce de uma mistura com as crenças indígenas,
não com nagôs.
Obviamente,
qual culto era mais visível aos brancos?
Dos
nagôs, certamente, é onde nasce o sincretismo, visto que a cosmovisão e a
teologia nagô é mais próxima (não similar) ao cristianismo?
É fácil apontar Ogum como São Jorge ou São Sebastião, Yansã como Santa Bárbara, visto que ambos são ancestrais divinizados, guardada as proporções teológicas e cosmovisão, porém tal correlação é impossível com as divindades banta, daí aparentemente surge o sincretismo inter-religioso, movido pelo sincretismo extra religioso com o catolicismo.
Os bantu para explicarem ao branco o que era
Nkisi, precisavam assemelhá-lo ao Orixá, que por sua vez era sincretizado como
santo católico. Convenhamos que hoje já não precisamos mais disso.
Tal
concepção partilhada com os nagôs fez criar um sincretismo inter-religioso,
pois o mais similar a Ndanda Lunda é Oxum, mas não significa que se trate da
mesma “divindade”, segundo os nagôs Oxum viveu, virou antepassada e ancestral
que “rege” (zela) as (pelas) águas doces, seria então Oxum zeladora da força da
água doce, a “sacerdotisa” ancestral capaz de invocar e intermediar a relação
dos humanos com a força Ndanda Lunda? (obviamente isto é só uma provocação para
pensarmos, mera ilustração).
Não
seria nenhum absurdo fazer tal afirmação, mas Ndanda Lunda não é Oxum. E Oxum
não é Ndanda Lunda, embora haja uma possível correlação pelo elemento água.
Todavia isso nem sempre é possível, uma vez que os bantu tem divindades
singulares que não encontram similaridades com Orixás nagô. Como Kitembo.
Evitei
entrar em pormenores religiosos, que explicam ainda mais as diferenças, mas
acredito que tem coisas que só quem é de dentro deveria saber, porém já que
muitos “estudiosos” do candomblé de dentro e de fora, tratam este ponto da “não
diferença” como uma verdade, achei por bem expor ao menos um pouco uma outra
mirada.
Argumentos
aparentemente bem balizados, podem reforçar paradigmas excludentes e que
invisibilizam uma população de terreiro que resiste até hoje para sustentar
seus ancestrais bantu.
Publicado
no perfil Facebook de Tata Sajemi la Lemba
https://www.facebook.com/photo/?fbid=3325655300888165
Transcrição:
Luiz L. Marins
- Jamais fumamos quando estamos preparando folhas, banho, omi axé, omi eró, quando em consulta oracular e rituais.- Não fumamos dentro do Ilê, somente é permitido aos fumantes em alguns locais pontuados no pátio.
Sobre manter limpo:
- Preservamos a limpeza, não somente física e espiritual, mas mental e social, afinal, lutamos por paz e uma vida melhor, por isso esperamos encontrar esta paz dentro do templo que habitamos.
- Tratamos todos iguais, pois aqui é uma casa a qual das divindades habitam e devemos o respeito e atenção total a elas.
Festas e encontros (*):
- Regra básica da casa: não ser um local de encontro amoroso, porque não estamos num baile, ou festa pessoal.
- Não é permitido relacionamentos entre irmãos de axé. Caso ocorra, serão convidados a retirarem-se da casa. Se tiverem obrigações, não poderão levar os okutas.
- Exceção é feita àqueles que já venham casados, ou namorando.
- Para a tranquilidade e confiança, pedimos que aqui mantenham o respeito e saibam que todos são irmãos.
Bebida alcoólica (***):
- Não costumamos confraternizar bebendo após rituais, não costumamos beber com filhos de santo. Respeitamos o local sagrado.
- Não incentivamos a bebida alcoólica, pois preferimos manter ambiente para que menores possam frequentar e conviver livremente.
Fundamentos e ensinamentos:
- Os ensinamentos e fundamentos são passados diretamente durante os preparos de rituais, ou cerimonias.
- A cultura, entretanto, é divulgada publicamente para todos do templo e simpatizantes, sem tentativa de monopolizar qualquer conhecimento cultural.
Vestimenta:
- Não é permitido roupas curtas (mini saia, shortinho ou bermudas), incluindo decotes, fendas ou transparência.
- Roupa conforme a sua identidade social.
Fio de contas e paramentos sagrados:
- Não usamos enfeites, nem missangas de plásticos, pois o fio de conta deve ser manufaturado conforme o fundamento e segredo de cada divindade.
- Não fotografamos e expomos o sagrado desta forma, não devemos fotografar, objetos, fios de contas e paramentos sagrados, pois eles pertencem ao orixá.
*A casa de axé é um local sagrado, possível de moradia do sacerdote e família, por isso, zelar pela ordem e bem estar de todos é mais do que necessário, é uma boa conduta e ética.
**O cigarro possui pólvora para o manter acesso, desta forma seria uma afronte para muitos orixás fumar enquanto estamos lidando com o sagrado.
*** Bebidas alcóolica durante e após rituais, somente quando houver ambiente e necessidade para que ocorra.