sexta-feira, 21 de junho de 2024

A MEMÓRIA VIVA DE CUSTÓDIO, PRÍNCIPE AFRICANO QUE VIVEU EM PORTO ALEGRE

Coletamos este artigo do Blog UFRGS/ Jornal da Universidade, acessado na data 21/06/2024.


"História | A trajetória e o mito do habitante da Cidade Baixa que se tornou um símbolo da luta antirracista e pela livre expressão de cultos africanos

Por Grégorie Garighan 

Em 01/04/2021 

*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU 20 mai. 2017

“Eu cresci com a história do príncipe Custódio”, conta Nina Fola, doutoranda em Sociologia pela UFRGS e participante da Comunidade Terreira Ilé Àse Yemonjá Omi Olódò, ao falar sobre a importância que a figura do príncipe adquiriu em sua vida. Apesar de toda a simbologia acerca da imagem de Custódio, sua história ainda não é conhecida por parte dos habitantes de Porto Alegre. Isso se deve, muitas vezes, à parca quantidade de registros históricos relacionados ao príncipe. Nina pontua que o racismo leva ao apagamento da história de pessoas pretas. “É fundamental a gente fazer a discussão sobre como o racismo nos tira memória. Memória de humanidade, memória de existência, de civilização”, acrescenta.

Mesmo com a invisibilização histórica, Custódio Joaquim de Almeida ainda é lembrado. A oralidade transmitiu grande parte do que se sabe sobre o príncipe, e, agora, as pesquisas acadêmicas avançam para resgatar sua memória e remontar sua trajetória na capital gaúcha. Na UFRGS, diversos estudiosos aprofundam o que se sabe sobre o príncipe e sua figura no imaginário porto-alegrense.

Custódio Joaquim de Almeida, ou Osuanlele Okizi Erupê, como era conhecido em Benin, seu país de origem e onde era príncipe, nasceu em 1831, como indica seu necrológio. Custódio teria vindo ao Brasil em busca de exílio devido ao imperialismo britânico e ao colonialismo europeu. O príncipe chegou ao estado da Bahia, supostamente, em 1898. A partir daí, diz-se que Custódio passou a peregrinar, seguindo ao Rio de Janeiro, onde se instalou por dois meses. Logo após, os búzios lhe teriam indicado que rumasse para o sul do Brasil. (os grifos são nossos)

No Rio Grande do Sul, Custódio viveu em diversas cidades, tais como Rio Grande, Pelotas e Bagé, possivelmente nessa sequência. Até que, em 1901, o príncipe teria chegado a Porto Alegre. A tradição diz que Júlio de Castilhos, presidente do estado de 1892 a 1898, havia solicitado cura espiritual para o príncipe, que era também famoso curandeiro e por isso foi levado à capital gaúcha.

Custódio morou no bairro Cidade Baixa, que na época, dentro do contexto pós-abolição, era ocupado pela população negra. Apesar disso, o príncipe tinha contato direto e estável com a elite da cidade e era praticante do turfe, esporte que consiste na corrida de cavalos, e que era frequentado, quase exclusivamente, pela alta elite.


O legado de Custódio é conectado, na maioria das vezes, ao assentamento do Bará do Mercado Público de Porto Alegre, que foi realizado pelo príncipe com a intenção de abrir os caminhos da cidade. Também é atribuída como mérito de Custódio a disseminação do batuque no Rio Grande do Sul, já que as cidades por onde passou têm uma forte presença de adeptos de religiões de matriz africana.
As lacunas preenchidas e as não preenchidas

Em um recente estudo sobre a história do príncipe Custódio, os historiadores Jovani Scherer, mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), e Rodrigo de Azevedo Weimer, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), descobriram uma série de documentos inéditos e que esclarecem diversos pontos acerca da presença do príncipe em Porto Alegre. Por meio de uma ferramenta de busca do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, onde Rodrigo trabalha, os historiadores encontraram três processos envolvendo Custódio e, a partir daí, se iniciou uma série de análises sobre o que se acreditava ser real na história tradicional, advinda da oralidade, e o que realmente havia se confirmado como verdadeiro.


“Durante muito tempo se dizia que não existia documentação sobre o príncipe Custódio. Era um personagem muito conhecido, muito falado, mas com pouca fundamentação em documentação, pouco embasamento. E isso levou a versões que a gente julgava um tanto inverossímeis, um pouco deslocadas do que a gente, como historiadores, estava acostumado a perceber desse período, dessa época em que viveu o príncipe Custódio” 
Rodrigo de Azevedo Weimer

O primeiro processo que constava da ficha de Custódio era relacionado a uma briga em que o príncipe teria se envolvido com um “homem português” em um bar de Porto Alegre. “No momento do auto de qualificação, que é onde se descrevem as características para identificar o réu, uma série de coisas sobre o príncipe Custódio foi desmontada em algumas linhas”, revela Rodrigo, ao contar que o documento indicava o ano de 1885, dezesseis anos antes de quando se imaginava que Custódio teria chegado à capital gaúcha. Além disso, no documento, o príncipe declarou ter 32 anos à época, contrariando a ideia de que Custódio teria nascido na década de 1830.

Jovani também comenta sobre outro documento que revelou informações em relação à chegada do príncipe ao Brasil. Trata-se de carta ditada, “por não saber escrever”, e enviada ao jornal A Federação em resposta a uma reportagem publicada na véspera pelo Correio do Povo que o difamava – e que, segundo alude, “em sua totalidade é um trabalho de pura fantasia”. Custódio afirma: “Muito moço, vim para estas generosas terras onde constituí família”. Esse registro, datado de 22 março de 1933, ajuda a confirmar que ele veio ao Brasil ainda muito jovem.

 Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional


A descoberta mais significativa, no entanto, está relacionada à sua descendência. No auto de qualificação, o príncipe revela o nome de seu pai, Joaquim de Almeida. Diferentemente do que se imaginava, o pai de Custódio não era um rei, apesar de Custódio ter sido reconhecido como príncipe em Porto Alegre. Segundo os historiadores Jovani e Rodrigo, acredita-se que Joaquim de Almeida tenha sido um homem muito poderoso e bem afortunado, que foi escravizado após as guerras que dissolveram o império de Oió e depois foi levado à Bahia. “Na Bahia, ele vai se tornar, logo em seguida, o braço direito de Manuel Joaquim de Almeida, de quem ele vai herdar o nome”, complementa Jovani. Trabalhando com Manuel, que era vinculado ao tráfico de escravos, o pai de Custódio se destaca e passa a ser parte de dez por cento dos homens mais ricos do estado.

Joaquim de Almeida volta ao continente africano após a Revolta dos Malês, dura repressão aos africanos na costa da Bahia que durou até o final do século XIX. Nesse contexto ele desempenha uma posição de liderança e poder ao chefiar um grupo de agudás (descendentes de mercadores de escravos e ex-escravos libertos no Brasil retornados ao Benin). Jovani pondera, ainda, que, com as novas descobertas, não se consegue saber o motivo que levou Custódio a vir para o Brasil, e essa passa a ser uma lacuna na história do príncipe. O historiador considera a possibilidade de que ele possa ter vindo ao país em um contexto de perseguição religiosa, ao mesmo tempo que confirma que a tese de exílio do imperialismo britânico não está correta.
O mediador

“O turfe era o grande encontro que reunia a mais alta sociedade e alguns membros de grupos não tão vinculados – grupos mais subalternos, populares”, explica Jovani, ao contar sobre a ocupação de Custódio com o esporte e em como esse foi um dos principais métodos para que o príncipe tivesse contato direto com a elite. Rodrigo, porém, acha interessante citar que se tratava de uma inserção social na elite local. “Ele tinha essa influência. Só que esse era um poder muito mais simbólico do que econômico. Porque ele era sócio no Haras, mas pediu dinheiro emprestado para comprar a parte dele. Ele se endividou”, relata.

Jovani pontua que, apesar de ser um homem com prestígio, Custódio não era rico e que construiu seu patrimônio trabalhando, provavelmente, com o turfe. Nina Fola considera que a utilização das relações com a classe política por Custódio foi o que lhe garantiu a posição social em que ele se encontrava e, por meio disso, pôde desenvolver um canal de comunicação direto. Rodrigo corrobora essa linha de pensamento: “Ele era um mediador entre os populares e a elite, então acolheu muita gente na sua casa. Ele podia levar demandas de um lado para o outro”.

Jovani relembra a ancestralidade agudá de Custódio, cujo povo era visto como um grupo que se movia entre os poderosos e os menos afortunados. Seu comportamento, portanto, era reflexo de um contexto prévio.

Os historiadores frisam, contudo, que seu caráter religioso e de símbolo antirracista são indiscutíveis e que isso foge do estudo histórico elaborado por eles. Todos os documentos estudados por Jovani e Rodrigo, juntamente de suas interpretações a partir deles, estarão disponíveis no livro O refluxo dos retornados: Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe africano de Porto Alegre, de autoria de ambos, que será disponibilizado gratuitamente no site do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul em breve.
 
Príncipe do povo

“Ele era um príncipe de Porto Alegre. Ele não era um príncipe por ser filho do Ovonramwen Nogbaisi. Ele era príncipe dos pobres, príncipe do povo. Ele era reconhecido assim pela população” 
Rodrigo de Azevedo Weimer

As discussões acerca das origens do príncipe Custódio são válidas; quando se fala de um príncipe africano que viveu em Porto Alegre e se tornou um símbolo para o movimento negro e a livre expressão de cultos afro-gaúchos, essa significação, porém, vai muito além de comprovações históricas, adentrando um imaginário identitário e de afirmação cultural que se mantém até os dias de hoje.

Rodrigo chama atenção novamente para o episódio em que Custódio briga com um homem português em um bar de Porto Alegre. Acredita-se que o motivo da briga tenha sido a revolta do príncipe quando o homem o trata como escravizado. “Por que o português diz que ele não podia estar bebendo naquele bar? Por que ele era negro? Ele era uma pessoa livre, se via como tal e defendia sua posição”, relata Rodrigo. “Eu acho que aqui a gente reencontra uma questão que é muito importante pras pessoas que falam no Custódio, que é o lugar dele como símbolo antirracista. Nesse ponto, a gente tá vendo um Custódio que se insurge, que se coloca contra a dominação.”

Luz Gonçalves Brito, doutoranda em Antropologia Social pela UFRGS, salienta o assentamento do Bará do Mercado, feito pelo príncipe Custódio, como uma narrativa que traz uma força política muito contundente. “Existe uma erupção do sagrado naquele espaço público de uma forma que é, além de muito interessante do ponto de vista cultural e histórico, também um ato de resistência política”, analisa a pesquisadora, ao frisar a visibilidade do povo negro através do rito sagrado e a manutenção de uma tolerância religiosa por meio dessa tradição.

Nina destaca o racismo religioso e a visão problemática de como se manifesta a religiosidade. Ela afirma que o Bará do Mercado é um exercício de liberdade religiosa muito significativo. “Eu nunca deixo de passar no Mercado, passar pela encruzilhada e de fazer meu gesto explicitamente”, narra Nina, que também cita as discussões iniciadas quando se propôs uma escavação do Bará, na intenção de encontrar a pedra energizada que teria sido plantada por Custódio.


“Nesse momento histórico não interessa mais se o príncipe plantou ou não plantou, interessa que o Bará já está ali, de tanto que a gente o louvou” 
Nina Fola

A socióloga salienta, ademais, a importância de se ter uma figura histórica atrelada ao batuque, que é uma religião afro-gaúcha. Afinal, ainda há uma visão hegemônica do candomblé sobre outras religiões afro-brasileiras. “O príncipe faz parte da genealogia do batuque do Rio Grande do Sul. Então, quando a gente fala de família, de herança, de memória, de história antiga, de fundamentos antigos e de tradição, a gente lembra o príncipe”, declara Nina.

A partir disso, nota-se o caráter intangível na história do príncipe africano que esteve em Porto Alegre. O principado de corte de Custódio não é mais tão relevante, nem mesmo a suposta pedra enterrada sob o Bará, mas sim os ritos, que, conforme cita Luz, articulam o tempo passado com o presente de uma forma intensa, revivendo uma tradição.

Ao refletir sobre qual seria o ponto simbólico mais importante deixado pelo príncipe em Porto Alegre, Nina responde sucintamente: “A sua existência”."

 Fonte - https://www.ufrgs.br/jornal/a-memoria-viva-de-custodio-principe-africano-que-viveu-em-porto-alegre/

segunda-feira, 17 de junho de 2024

ENCONTRANDO BÀRÀ: HISTÓRIA EM UMA CIDADE DO IMPÉRIO

Coletamos esta postagem no blog Olongo Africa, postado em 23/02/2022, acessado em 17/06/2024.
 
"ENCONTRANDO BÀRÀ: HISTÓRIA EM UMA CIDADE DO IMPÉRIO
Madeira Molara
23/02/2022

Dirigimos ao longo dos 2.512 quilômetros quadrados do Parque Nacional Old Ọ̀yọ́ até chegarmos à movimentada Bani, na Área de Governo Local de Kaiama do Estado de Kwara, a cerca de duas horas do nosso destino, a cidade de Bàrà, o sítio arqueológico mais ativo da Nigéria.

Bàrà está fora dos limites do Parque Nacional e, portanto, está desprotegida contra novas e persistentes ameaças a este local de patrimônio inestimável. Isso apesar do enorme significado histórico de Bàrà e sua estreita associação com a antiga capital do Império Ọ̀yọ́, Ọ̀yọ́ Ilé, que está localizada dentro do parque.

O ar agrário de Bàrà desmente seu passado como um dos centros mais importantes do império do século 17, um dos maiores da África Ocidental, que se estende de algumas partes da atual Nigéria ao Togo e à República do Benin. Os vestígios desta grande história, embutida em toda a paisagem de Bàrà, são a razão pela qual este local de 1,92 km de diâmetro viu mais de 50 escavações arqueológicas nos últimos anos.

“Nenhum outro lugar na Nigéria recebeu tanta escavação quanto nós fizemos aqui”, diz Akínwùmí Ògúndìran, professor do chanceler e professor de Estudos Africanos, Antropologia e História da Universidade da Carolina do Norte-Charlotte, EUA. É autor de O Yorùbá: Uma Nova História, publicado em 2020. O arqueólogo foi apresentado pela primeira vez como estudante a Ọ̀yọ́ Ilé e seus arredores no final dos anos oitenta por seu professor e mentor, Babátúnde Agbájé-Williams. Agora, Ògúndìran lidera sua própria equipe de jovens acadêmicos (da Universidade de Ibadan, onde é professor visitante) no Projeto Arqueológico Ọ̀yọ́ de dez anos de idade, que ele iniciou em 2017 em colaboração com o Serviço de Parques Nacionais da Nigéria. A National Geographic Society apoia o trabalho de campo que estamos aqui para observar.

 

Ruínas da Muralha da Cidade (Imagem: Molara Wood)

Ao descobrir Bàrà e sua muralha histórica há alguns anos, Ògúndìran e sua equipe pausaram seu trabalho nos locais relacionados de Ọ̀yọ́ Ilé e Kòso, a fim de se concentrar em Bàrà. Eles começaram a mapear sistematicamente o site e coletar dados, documentando todos os recursos relevantes.

“Fizemos isso com a intenção de nomear este local como patrimônio nacional, e precisamos de evidências arqueológicas para poder fazer essa afirmação”, diz Ògúndìran.

Bàrà foi o local de sepultamento do Aláàfin (Rei) de Ọ̀yọ́, governante do império e seus milhões de súditos. Muitas Aláàfins passadas – incluindo figuras históricas icônicas de Yorùbá, como Aláàfin Aólẹ̀, Onisile, Ajagbo e Ọbalókun – foram enterradas aqui. “É um local espiritual”, explica Ògúndìran. “Quando um novo Aláàfin fosse instalado, os eleitos de Aláàfin deveriam vir aqui para adorar os Aláàfins do passado. E foi aí que ele pôde ser reconhecido em Ọ̀yọ́ Ilé.”

Na morte, o rei seria trazido de volta a Bàrà para os ritos funerários finais. Dos que retornavam com os restos mortais, alguns iriam com o Aláàfin para o outro mundo (a premissa da peça de Wole Soyinka, A Morte e o Cavaleiro do Rei, baseada em um evento histórico).
Marcador de Pedra Bara (Imagem: Molara Wood)

O levantamento arqueológico, incluindo o uso do Radar de Penetração no Solo (GPR) e do magnetômetro, até agora não conseguiu descobrir os mortos reais de Bàrà. “O site é grande; apenas arranhamos a superfície”, diz o arqueólogo.

De qualquer forma, o projeto está mais interessado na vida daqueles que viveram em Bàrà e na cultura material que deixaram para trás. De acordo com Ògúndìran, “Bàrà era mais do que um lugar onde enterravam pessoas. Foi também onde sacerdotes e sacerdotisas que administrariam ao rei na vida após a morte foram reassentados. Algumas das esposas do palácio, algumas [cortesãos], seriam realocadas para cá, e haveria servos ligados a elas, para manter este lugar.”

Uma evidência da importância estratégica de Bàrà foi a magnífica muralha que não só cercou a cidade, mas também a dividiu geograficamente em duas. Construída com pedra e laterita, a parede subiu para cerca de seis metros à medida que seguia seu caminho ao redor, e subindo e descendo as colinas gêmeas de Bàrà, completas com portões formidáveis. Com 6,2 km de circunferência, a equipe do projeto levou três anos árduos para mapear a parede.

“O Império Ọ̀yọ́ foi construído para impressionar”, diz Ògúndìran. O antigo Reino Ọ̀yọ́ esteve no exílio na cidade de Igboho por quase um século antes de retornar à sua capital de Ọ̀yọ́ Ilé, por volta de 1570. Este foi o alvorecer do império, que embarcou em uma ambição expansionista, construindo grandes vilas e cidades. As ruínas da parede de Bàrà são um indicador dessa visão ousada; a construção provavelmente levou anos, incorporou a topografia e exigiu mais de 500 construtores.

 


Akínwùmí Ògúndìran, Professor de Estudos Africanos, Antropologia e História, Universidade da Carolina do Norte em Charlotte. Imagem: Ọlálékan Adédèjì

“O trabalho deve ter sido imenso, então deve ter havido uma razão. Não foi uma construção extravagante”, diz Ògúndìran. “Sem uma organização social sofisticada, você não pode ter esse tipo de programa de construção em larga escala. O Império Ọ̀yọ́ era tão sofisticado que eles tinham um ministro de pesquisa [para garantir] que as muralhas fossem construídas. Eles tinham um funcionário do palácio dedicado para isso.”

Uma das descobertas mais emocionantes da equipe é o local conhecido simplesmente como Bàrà Stone Marker 6 (BSM6), que traz à luz pequenos grupos pré-impérios que vivem do lado de fora da parede de Bàrà, entre os 13 anos.ésimo até 15ésimo Séculos. “Quando o período imperial começou, foi quando a ocupação deste local terminou”, de acordo com Ògúndìran, que acha que os ocupantes podem ter sido evacuados para povoar as novas cidades do império. Entre as descobertas na BSM6 estão os frágeis restos de um indivíduo que ficou enterrado sob um pátio doméstico por mais de 700 anos, e que pode conter a chave para “como era a vida antes do império começar”.

O povo aqui poderiam ser Ọ̀yọ́ antes da fase Igboho-exílio, ou um ramo de seus ancestrais. O que é certo é que eles eram “uma civilização muito sofisticada na maneira como faziam sua cerâmica”. Não é possível caminhar alguns passos em Bàrà sem ver fragmentos de vasos, muitas vezes com desenhos intrincados da antiga cerâmica Ọ̀yọ́ – milhares estão no local aqui.
Poço de Produção de Carvão Vegetal (Imagem: Ọlálékan Adédèjì)

Também escavados na BSM6 estão objetos incluindo contas de Carnelian e Jasper, uma figura de terracota, bem como escórias de ferro, um subproduto da fundição de ferro. Como observa Ògúndìran, “É a aglomeração de materiais que nunca foram vistos antes, que não são conhecidos antes”, que faz da BSM6 tal descoberta. “Isso abrirá a porta para entender como o Império Ọ̀yọ́ começou.”

As contas oferecem uma janela sobre a história do comércio da África Ocidental. Como Ògúndìran explica: “Embora fosse uma comunidade pequena, temos evidências de que eles tinham uma ampla rede. Esta área fazia parte de uma grande rede regional de comércio entre o Yorùbá Central (Ilé Ifẹ̀) até o rio Níger e todo o caminho até o 14ésimo século Mali Empire.”

A sociedade Bàrà dentro do muro e as comunidades imediatamente fora dele em um período histórico anterior, encapsulam o objetivo declarado do projeto neste local: entender a relação entre as diferentes pessoas que viviam aqui. Isso é prejudicado por novas comunidades que invadiram maciçamente o local sagrado nos últimos anos e cujas atividades estão rapidamente corroendo o caráter histórico do local e dizimando milhares de árvores do patrimônio que permaneceram em Bàrà por décadas, até séculos. A alarmante perda de cobertura arbórea no local prenuncia uma crise ambiental, à medida que a desertificação se aproxima.
Escavações arqueológicas do Império Pré-Ọ̀yọ́. Imagem: Ọlálékan Adédèjì

O pastoreio de animais, a agricultura arável e uma indústria ilegal de carvão vegetal estão crescendo, representando uma ameaça existencial ao local e seu enorme estoque de itens arqueológicos. A produção de carvão vegetal tem sido particularmente devastadora. As árvores estão sendo mortas através da pirólise, incendiadas a partir das raízes para preencher uma linha crescente de sacos de carvão de Bàrà. Dezenas de poços de carvão estão no local e tocos onde as árvores de madeira vermelha ficavam.


E sem nenhum sinal de uma mudança na indiferença do governo, o dano parece destinado a continuar. A perda de um grande sítio histórico, mesmo quando um projeto arqueológico está apenas começando a arranhar sua superfície, seria um desastre cultural de proporções indescritíveis.

Ògúndìran convocou o atual Aláàfin – Oba Lamidi Adéyẹmí III, que governa a partir da atual localização de Ọ̀yọ́ – para intervir. Até agora, o rei, guardião da história de Ọ̀yọ́, não é conhecido por ter exercido seu direito moral sobre a antiga Bàrà.

“Todas as árvores ao nosso redor estão mortas”, lamenta Ògúndìran, que teme que a integridade do local esteja agora tão comprometida que não possa mais satisfazer uma reivindicação de designação oficial de patrimônio. “Quando começamos, não havia nenhum prédio dentro desse muro. Mas nos últimos dois anos, eles construíram [moradias], começaram a cultivar aqui. E esse processo vai continuar nos próximos anos.”

No início do projeto, há cinco anos, a população local reverenciava o local como sagrado, alegando ver luzes no baobá no local à noite. “Mas nos últimos quatro anos, essa crença diminuiu por causa da pressão sobre a terra”, e os atores mais novos se mudaram sem se importar com o patrimônio cultural e histórico. Eles também não são avessos à sabotagem ocasional do trabalho arqueológico.

“Em pouco tempo, diante de nossos próprios olhos, as coisas mudaram à medida que a pressão para alimentar sua própria população aumentou”, diz o estudioso. “Este é um dos locais bem preservados que devem ser mantidos, mas, infelizmente, não fomos rápidos o suficiente. E do jeito que as coisas estão indo, se nada for feito no próximo ano, eu tenho medo…” Sua voz se afasta.
Árvores mortas destruídas pelo fogo nas raízes (Imagem: Ọlálékan Adédèjì)

“Estamos recuperando algumas evidências para dizer a gerações que, neste lugar, neste momento, foi isso que aconteceu – mesmo quando o local não está mais aqui.”

Como afirma o diretor assistente do projeto, Olusegun Moyib, do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Ibadan, “Nenhuma escavação é uma perda de tempo. Quer você descubra ou não descubra, você ainda tem uma história para contar.”

Molara Wood é uma escritora criativa, jornalista e crítica nigeriana. Ela tem sido descrita como “uma das vozes eminentes nas Artes na Nigéria”. Seus contos, flash fiction, poesia e ensaios apareceram em inúmeras publicações. Estes incluem African Literature Today, Chimurenga, Farafina Magazine, Sentinel Poetry, DrumVoices Revue, Sable LitMag, Eclectica Magazine, The New Gong Book of New Nigerian Short Stories (ed. Adewale Maja-Pearce, 2007) e One World: A Global Anthology of Short Stories (ed. Chris Brazier; Novo Internacionalista, 2009). Atualmente vive em Lagos, e dirige o ART for the People Podcast."

sábado, 15 de junho de 2024

PAI RONEI DE OXALÁ FALA SOBRE BALÉ- ANCESTRALIDADE.

Coletamos esta postagem do Facebook, que debate sobre o que cultuam no Igbale de algumas casas, pela importância do conteúdo debatido, registramos no blog para gerações futuras possam estudar e pesquisar.

Vejamos:


"SAIBA MAIS COM PAI RONEI DE OXALÁ SOBRE BALÉ- ANCESTRALIDADE.

Por Jose Ronei Antunes Almeida

Postado em 12/06/2024


          [...]

Claudia Krindges  · 
Hum...pressupõe-se então, pelas falas, que todo Balé é habitado por espíritos atormentados, já que vivem em regiões umbralinas? Isso é uma espécie de Sincretismo? É por isso que o povo do Sul tanto teme o Egum, como um gênio maligno da lamparina? Com todo respeito, Candomblé não teme o Egum, mas o Ajogun e Yamis, e acredito que nenhuma Nação seja melhor que a outra, cada uma tem suas particularidades (Feituras rígidas, não inventadas) todas se devem respeitar e não fomentar disputas e medo entre seus adeptos, sob pena da debandada das matrizes. Meu axé aos meus!🤔

Jorge Mansur
[Claudia Krindges] aqui transformam egum em elenini, ajogum

Claudia Krindges
Por isso que o Batuque é perseguido pelo restante do país. Não basta cultuar somente a sua religião: tem que importar elementos, fundamentos e até espíritos ou deidades de OUTRAS religiões. Peço desculpas, mas se sua religião não lhe satisfaz como ela é, essa não e a sua religião. Não acha, Mago?

André D'Ogum Avagã
[Claudia Krindges] a própria falta do trazer dos cultos de egungun pro nosso batuque já foi um problema por si só. Respeito a cabinda mas pra mim não tem lógica um orixá descer em terra e criar uma nação nova e ainda dizer que nunca mais vai se manifestar em ninguém. O culto correto que seria a egungun foi substituído por um culto a uma suposta divindade que simplesmente ninguém sabe explicar quem é e daonde veio.

Marcelo Rosa Silveira
Desculpa mas o porque a Cabinda do pai Cleon é cabinda pura e a dos outros não?
Acho que cometeu um erro nessa fala !
Meu agô!

Diego da Rosa
[Marcelo Rosa Silveira] canta para legba e demais voduns tem jeje, sou de cabinda e digo, tem muito do jeje e oyó na cabinda….

Carlos de Xangô
Nosso Balé cultua pessoas?
Ligação com umbral?
Não entendi.

Rafael Tealdi
[Carlos de Xangô], sua benção pai🙏🏼, também gostaria de saber o significado da palavra Umbral para a Cabinda ou nas palavras do Pai Ronei. Essa palavra vem do Kardecismo e ela reflete um estado de consciência pós desencarne, onde ficam os espíritos que não souberam aproveitar a vida em forma de evolução. Sabemos através do espiritismo, que em nossa dimensão astral, existem dimensões de grau evolutivo e outras de baixo grau. Mas isto é kardecismo. Como somos de nação , qual a base de fundamento, para este caso, no sentido de onde se encontram nossos ancestrais. Essa lógica kardecista se aplica a nós? Se fizer um vídeo em sua página sobre isso, lhe acompanho por lá. Obrigado 🙏🏼

Carlos de Xangô
[Rafael Tealdi] querido, sejamos abençoados, tu estás coberto de razão, na nossa Cabinda, não há ligação com espiritismo, umbral, somos matriz africana a, nosso Balé cutua Orixa de antepassados, jamais pessoas.

Rafael Tealdi
[Carlos de Xangô] vou me antecipar, caso alguém fale para perguntar a minha iyálorisà ou ao meu Bàbálòrìsà, minha Iyálorisà faleceu há alguns anos e estou na mão do filho carnal dela, hoje meu Bàbálòrìsà, porém somos de Òyó e tenho interesse por tudo o que é de Batuque, por isso meu questionamento sobre a Cabinda a quem é de Cabinda. Obrigado 🙏🏼

Eddson Santhos
[Carlos de Xangô] aprendemos com o nosso pai Cleon que nem os orixás da pessoa que se suicidou não se cultua no balé .. por ter retirado a vida espírito suicida ... Imagina espíritos de umbral ... Eu não aprendi isso com o pai Cleon

Chico Neto
Mais um que abriu Igbale com filho, NÃO SE ABRE IGBALE COM FILHO, se teu pai ou mãe de santo é vivo, teu Igbale é mais um fora do "contexto"

Jose Ronei Antunes Almeida
[Paula Y Lissandro] sim Paula a necessidade do assentamento é na realidade a segurança máxima de uma casa.
Mas cabe esclarecer que a casa que não cultura o balé não significa que seja fraca pois os orixas vão fazer sempre a segurança necessária.
Porque o assentamento de.casa de egum tem o.momento certo ser feita.

Jarrinha Sg
Muito interessante, assistir quem conhece com maestria esse assunto igbale, mais peço sua licença para fazer uma pergunta como um simpatizante de nação pois não sou filho de ninguém e nem tenho intenção e mais por curiosidade de aprender. A perguntar é se no igbale se cultua o ancestral ou seja o que venho antes, como se cultua os filhos de Santo pq eles seriam descendentes ou seja que vem depois? Essa sempre foi uma curiosidade pq já ouvia cada resposta absurda.

Jose Ronei Antunes Almeida
[Jarrinha Sg] oi importante a pergunta o que se faz é cuidar do espírito daquela pessoa não como um ancestral mas sim como um egum que participou daquele templo por muitos anos, portanto merece todo o nosso carinho e respeito

Lëo Läng Isis
Ótima explicação... Eu era jejê ijexá... Fio pra Cabinda, e meu orixá não aceita estou migrando pra Gegê ijexá novamente... Lógico com apoio sempre. Sou pronto de Bará a oxalá.

Jose Ronei Antunes Almeida
[Paula Y Lissandro] ora e muito complexo a resposta , justamente por não ter como cuidar do egum no jeje era necessário a mudança que foi muito bem pensada e claro desde o momento que você concorda e o orixa da ago é possível sim.
A passagem foi muito tranquila e próspera e com certeza solucione um problema que era a maneira de fazer um erussum necessário e dentro dos ensinamentos do pai fiquei muito feliz em poder cuidar melhor de meus ente queridos com amor dedicação e luz.

Roger Leite
[Jose Ronei Antunes Almeida] quem lhe disse que não se cuida da ancestralidade no jeje?

Paula Y Lissandro
Acredito q com seu vasto conhecimento será esclarecedor ouvir do senhor sobre a diferença entre a Cabinda de Fundamento do Pai Cléon e a Cabinda q denominam-se alguns Pais e Mães d Santo, na qual algumas famílias religiosas cultuam, aqui no RS, mas não apenas as diferenças, mas sim o pq das tantas diferenças, na qual uma delas é: o filho fica d obrigação 7 dias no chão e outra 3 dias d chão, temos a diferenciação nas frentes de quatro pés, entre tantas coisas.
Informo q essas famílias não aceitam serem Cambinda e ou Kabindas.
Obrigada, aguardo anciosa!

Jose Ronei Antunes Almeida
[Paula Y Lissandro] a bacia de cabinda tem várias vertentes , no caso de Pai Cleom ele era considerado o patriarca da nação portanto todos os seus seguidores devem seguir a risca o que o pai ensinou, portanto não pode haver mudanças no ritual.

Babalorixa Nenê Oxum
Parabéns pai ótima explanação sobre Bale, o único problema que infelizmente algumas pessoas, confundem com buraco de almas pra exu etc, e usam pra outras finalidades digamos assim, daí o medo das pessoas sobre Bale que é culto aos Ancenstrais, axé pai.

Junior de Onira
Tem balé a 15 anos mas teu pai faleceu a dois ou três anos balé ancestral até onde já diz a palavra e oq vem antes de vc e não depois aí balé de filho de santo não tem validade pois não é ancestral vc precisa rever sua fala pois ou é uma coisa ou outra quanto a tal cabinda pura melhor até ficar quieto aqui pois vai dar pano pra muitos debates filho não se abre balé e sim buraco de egum e um e bem diferente do outro"

Considerações  

Consideram que sejam ancestrais que cultuam no igbale.
Há famílias que cultuam o morto e outras o orixá deste morto.
Entre estas famílias que cultuam o orixá do morto, colocam a foto do morto, não ficando claro o porque deste costume.
Ainda nesta postagem mencionaram que na Kanbina (atualmente conhecida por Cabinda), cultuam-se alguns Voduns, no entanto, não há provas da existência do culto de Voduns. 


Imagens documentais:




TIKTOK ERICK WOLFF